Washington e Pequim: ameaça potencial ou vontade de cooperação?, por Paulo Duarte

À medida que a China domina as suas dificuldades internas, isto é, as suas próprias resistências ao progresso, ela torna-se um ator cada vez mais confiante em si mesmo e mais importante, também, na cena internacional. É o que pensa, por exemplo, Robert Sutter, para quem «chegará o momento, antes mesmo de 2020», em que a China terá adquirido um poder suficiente que permitirá aos seus responsáveis «optar por uma política diferente e mais firme face aos assuntos internacionais» (2004: 88). No entanto, o autor afirma que não existe certeza quanto ao facto de saber se essa nova postura tenderá a apoiar ou, ao contrário, a se opor aos Estados Unidos e a outras forças importantes no futuro contexto internacional (ibidem). Parceira ou adversária do Ocidente, a China será, de qualquer forma, obrigada a coabitar com ele.

De facto, como sublinha Delphine Goyens «o Ocidente não pode ignorar o êxito económico da China, que abriga 20% da população mundial» e, por outro lado, Pequim «é indispensável no que respeita à questão do terrorismo e da proliferação nuclear»(2007: 101). Além disso, a autora estima que a China «não pode ignorar parceiros económicos tão importantes, como são os Estados Unidos ou a União Europeia» (ibidem). Mas, contrariamente às relações entre chineses e europeus, as relações entre Washington e Pequim revelam-se muito mais complexas, frequentemente tensas, e impregnadas de um misto de ‘paixão recíproca’ e de desconfiança mútua. Elas merecem aqui a nossa atenção dada a sua importância (uma sendo a superpotência, a outra, uma potência em ascensão). Por outro lado, como sublinha Benoît Vermander, «o que torna atualmente essa relação mais importante e interessante que nunca, é facto de ela associar dois países, cujo peso face ao resto do mundo, não tem senão crescido desde há uma vintena de anos» (2004: 101).

Vários autores consideram que este novo século será mais chinês que americano. Mas, se em Washington «a obsessão chinesa» é bem real, os responsáveis políticos parecem, no entanto, hesitar face aos perigos de uma política de ‘endiguement’«que, no caso da China, poderia ser nefasta à economia norte-americana» (Courmont, 2007: 1). Daqui resulta que nos Estados Unidos a preferência vai antes para a via do ‘endigagement’, «que consiste em isolar politicamente Pequim, mantendo, ao mesmo tempo, uma parceria ativa em matéria económica e comercial» (ibidem). Perante um tal contexto, serão as relações sino-americanas marcadas por uma ameaça potencial, ou, traduzirão, ao invés, uma vontade de cooperação? A resposta oscila entre estes dois extremos, embora pareçam ser sobretudo marcadas por um clima de suspeição mútua (ibidem). Com efeito, nas relações entre Washington e Pequim, existe a possibilidade de uma colaboração frutífera nos mais variados domínios, embora, por outro lado, segundo B. Courmont, «os dirigentes norte-americanos considerem a China, senão como um inimigo ou uma ameaça à sua segurança, ao menos como um risco potencial» (ibidem). Na realidade, existem desafios-chave, tais como a «a competição política e económica na Ásia, a vontade chinesa de expandir a sua soberania nos espaços terrestre e marítimo, que ela considera seus, e sobretudo a questão de Taiwan», que, no seu conjunto, «continuam a comportar sérios riscos de tensão, senão mesmo de afrontamento, inclusive no plano militar» (Heisbourg et al, 2009: 17).

Segundo B. Charpentier et C. Reveillard, «a omnipresença e desconfiança norte-americana face à China é percebida como uma cercadura, uma dominação injusta, e um obstáculo à persecução dos objetivos estratégicos chineses, em especial, ao seu aprovisionamento energético»(2007 : 265). Se uma tal cerca dura está longe de ser irreal, já que Washington procura tudo fazer para que a China permaneça uma potência média, esta não quer ser relegada para segundo plano. Entre outros objetivos, Pequim conta «antes de mais recuperar Taiwan por razões estratégicas, mas também eminentemente políticas (o princípio de uma única China), depois quebrar a cercadura norte-americana, constituída pelo eixo Japão-Coreia do Sul, e enfim, restabelecer a dominação comercial do Pacífico encerrando as bases norte-americanas e encorajando à diáspora» (ibidem). No fundo, as ambições e estratégias das duas potências «jogam-se nos mesmos terrenos» porque Pequim e Washington «querem simultaneamente diversificar as suas fontes de aprovisionamento em matérias-primas, mas também controlar os gestos um do outro»: eles interessam-se de novo por África, que se acreditava estar esquecida, e aproximam-se da Índia» (Charpentier e Reveillard, 2007: 266).

A China tem vindo a tornar-se «bastante crítica face à política norte-americana na Ásia ao longo dos últimos anos (desde o início da crise nuclear norte-coreana, no outono de 2002, e, sobretudo, o discurso sobre ‘o eixo do mal’ de George W. Bush, em janeiro de 2002, que marcou uma nova era nas relações entre os Estados Unidos e os Estados ditos ‘pária’)» (Courmont, 2007 : 3). Por sua vez, a política norte-americana tornou-se mais firme que no passado. Mas tal não impede que ela comporte uma certa ambivalência. Com efeito, os termos «parceiro estratégico» e «competidor estratégico» parecem sobrepor-se «em função das circunstâncias e das influências políticas e ideológicas que definem a percepção da China em Washington» (ibidem).

Seja como for, a mistura de «prudência tática» e de «indeterminação estratégica», de que é feita a política chinesa dos Estados Unidos não visa, no entanto, o choque perigoso entre os interesses chineses e norte-americanos (Heisbourgat al, 2009: 24). Ao contrário, segundo B. Vermander, «os Estados Unidos querem absolutamente evitar cair numa espiral conflitual com Pequim», tal como a China que, por seu lado, procura «não colocar em perigo uma relação comercial essencial ao crescimento económico, peça-chave da manutenção da estabilidade social» (Vermander, 2004 : 104). Com efeito, um outro autor, Robert Sutter, avisa que ao ir contra os interesses de Washington, o Império do Meio «pode vir a colocar em risco a estabilidade (muito importante para a sua modernização e também para a modernização da Ásia do Sul), forçaria os Estados asiáticos a terem de escolher entre os Estados Unidos e a China, e afastaria de si a maior parte dos líderes asiáticos (que procuram evitar a instabilidade) (Sutter, 2004 : 77).

Apesar dos desafios que fazem da China e dos Estados Unidos parceiros, diversos analistas acreditam que a sua rivalidade e desconfiança tendem a sobrepor-se à sua vontade de cooperação.

Referências bibliográficas 

CHARPENTIER Benoît et REVEILLARD Christophe (2007),La puissance chinoise au risque de la mondialisation, Géostratégiques n° 17 – La Chine, Septembre.

COURMONT Barthélémy (2007),Le nouveau Livre blanc sur la défense de la Chine, Institut de Relations Internationales et Stratégiques-France, www.iris-france.org/docs/pdf/regardtaiwan/2007-01-05.pdf

GOYENS, Delphine (2007), La Chine, partenaire ou adversaire de l’Occident?; Michèle Schmiegelow, promoteur Louvain-la-Neuve : UCL.

HEISBOURG François (et ali) (2009),Emergence d’une superpuissance  – La Chine : partenaire ou adversaire ?,Fondation pour la Recherche Stratégique

SUTTER Robert(2004), WhyDoes China Matter?,The Washington Quarterly, Winter.                                                                                               

VERMANDER Benoît (2004), La Chine ou le temps retrouvé, Ceras – revue Projet n°278, Janvier.

Paulo Duarte é doutorando em Relações Internacionais no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa – ISCSP-UTL, Portugal, e investigador no Instituto do Oriente (duartebrardo@gmail.com).

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