Dependência e espírito animal, por Angelita Matos Souza

Hoje (04/09/2013) em coluna na Folha de São Paulo, Antonio Delfim Netto escreveu que no curto prazo a situação da economia brasileira é complicada. Perspectiva passível de mudança com “um enorme sucesso nos leilões de infraestrutura e energia e o comportamento amigável do governo, que coopte o ‘espírito animal’ dos empresários com uma política pró-mercado, e não com subsídios”. O problema é que para mudar tal perspectiva e despertar o “espírito animal” com um comportamento amigável o governo precisaria assumir um sentido claramente “entreguista” (ou “amigável”), como pretendemos esclarecer reproduzindo passagem de um texto recente nosso.

Implicitamente inspirados pelos governos do PT, diríamos que embora não seja possível defender a existência de uma “burguesia nacional” no Brasil, supostamente identificada ao interesse nacional em contraposição ao capital imperialista, na luta política, a retórica nacionalista pode ser utilizada pelos representantes do grande capital local em defesa dos seus interesses.

Isto é, em determinadas conjunturas, o discurso nacionalista pode ser utilizado contra competidores estrangeiros, acirrando as contradições que perpassam o Estado e muitas vezes indo ao encontro das reivindicações de partidos e movimentos de esquerda e/ou nacionalistas – de que o  Estado seja soberano e defenda o interesse nacional.

Menos que à tomada de posições anti-imperialistas, geralmente assistimos às operações discursivas voltadas para conquistas de políticas econômicas favoráveis aos interesses de frações de classe que têm ou desejam ter negócios/associações com o capital estrangeiro.

Da mesma forma, os representantes do grande capital produtivo procuram resistir a incontrastável hegemonia do capital financeiro (internacional, associado e/ou local) fazendo coro contra a política de juros altos como se não ganhassem muito no circuito financeiro. Daí a insuficiência, por exemplo, da redução dos juros para estimular investimentos, pois discursos muitas vezes não passam de bandeiras de luta.

Também não é nada fácil cobrar metas/resultados dos representantes do setor produtivo quando se é altamente permissível/generoso no que tange aos interesses do capital financeiro local e internacional, cujos interesses são afinados, ainda que banqueiros locais resistam à abertura do mercado ao capital estrangeiro (querem sócios não concorrentes).

Ademais, os comportamentos conservadores/defensivos ou o baixo “espírito animal” costumam prevalecer entre aqueles que se reconhecem como a porção fraca no mundo dos negócios nacional e internacional, sendo que as expectativas futuras quanto aos investimentos costumam acompanhar a dos agentes estrangeiros. Assim, se num momento de retração econômica internacional, estes diminuem investimentos produtivos, o mais provável é que agentes locais assumam também posições reticentes quanto aos novos investimentos, por mais que o governo busque estimulá-los neste sentido.

Mas governos precisam de investimentos, crescimento econômico e empregos, portanto acabam cedendo à instrumentalização dos recursos que lhe são próprios – poder de taxação/regulamentação, isenções fiscais, financiamentos públicos e parcerias – para atrair e garantir os investimentos externos em território nacional. Quando exitosos, os representantes do capital local tendem a se animar e voltar à disposição de investir, em meio às disputas pela partilha do mercado, nas quais o discurso “nacionalista” pode surtir efeitos, mormente sobre governos desenvolvimentistas.

Em suma, as contradições impostas pela dependência à luta política, se ao capital estrangeiro interessa o Estado como caução dos investimentos, ao capital local, mais que o Estado, a caução encontra-se na participação do capital estrangeiro. O que costuma produzir efeitos recorrentes, que, na luta política, tendem a aparecer como específicos da conjuntura (e em alguma medida o são).

Desta ótica, certa “relativização” do conteúdo nacional-desenvolvimentista que o governo Dilma parecia querer imprimir à sua política econômica está relacionada obviamente à dependência.

Angelita Matos Souza  é doutora em Economia Aplicada pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas – IE-UNICAMP e Mestre em Ciência Política pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da mesma instituição – IFCH-UNICAMP. Professora na Universidade Estadual Paulista -UNESP, campus de Rio Claro (angelitams2010@gmail.com).

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