Um mundo ‘Uni-Multipolar’, por Paulo Duarte

Na opinião de Samuel Huntington, um sistema internacional unipolar pressupõe “a existência de uma única superpotência, algumas grandes potências e bastantes potências de menor peso” (1999: 35). Seja como for, é possível deduzirmos que a “única superpotência aos olhos de Huntington só pode ser os Estados Unidos” (Homerin, 2003: 12). Isto não significa, no entanto, que o autor defenda que o sistema actual é unipolar. Porquê? Porque, mesmo se a noção de unipolaridade se apoia na existência de uma única superpotência e de numerosas potências menores, “é um facto que o sistema internacional actual é constituído por potências que não podem, de modo algum, ser classificadas de menores” (ibid.: 28).

Em segundo lugar, para que um sistema possa ser qualificado de unipolar, é fundamental que a superpotência possa resolver sozinha, e de modo eficaz, os grandes problemas internacionais. Ora, sabemos que apesar do peso dos Estados Unidos no xadrez internacional, estes estão conscientes, porém, que não podem permitir-se tudo sem o apoio de outros países. Efectivamente, mesmo enquanto superpotência, devem cooperar, sobretudo quando se trata de questões complexas (ibidem).

Finalmente, se nos recordarmos da citação do grande diplomata americano George Kennan, compreendemos que o postulado de um mundo actual unipolar deve ser posto em questão, ou mesmo rejeitado. Com efeito, Kennan preconizava que “este planeta jamais será governado a partir de um único centro político, qualquer que seja a sua capacidade militar” (ibid.: 29).

A ideia de unipolaridade cede o lugar à noção de ‘uni-multipolaridade’, avançada por Samuel Huntington. Por sistema multipolar, o autor entende um sistema que “possui diversas grandes potências de forças comparáveis que cooperam e rivalizam entre elas” e, no qual, “é necessário existir uma coligação de Estados importantes para solucionar os grandes problemas internacionais” (Huntington, 1999). Se Huntington afirma que o modelo unipolar não se aplica, em bom rigor, ao sistema internacional actual, o autor está convencido, contudo, que este último não pode continuar a ser explicado pelo modelo multipolar (Homerin, Op. Cit). Por conseguinte, o modelo ‘uni-multipolar’ revela-se um conceito híbrido, resultante da fusão de características multipolares e unipolares (Laidi, 2003). Além disso, ele supõe a existência de uma superpotência e de várias grandes potências (visto que pólos como a China, o Japão ou a União Europeia estão muito longe de ser considerados potências menores) que cooperam nas grandes questões internacionais (ibidem).

De acordo com um outro autor, Pierre Hassner, o mundo actual é “unipolar do ponto de vista militar” e, ao mesmo tempo, “multipolar do ponto de vista económico e, sobretudo, cultural” (2003: 63). Estas duas características, apesar das suas diferenças, “podem perfeitamente coexistir”, segundo o autor, tanto mais que nos encontramos “num contexto onde o poder e os actores internacionais são complexos, imprevisíveis” (ibidem).

Referências bibliográficas

BADIE, Bertrand (2004), L’impuissance de la puissance: essai sur les nouvelles relations internationales, Fayard.

HAASS, Richard (2008), “We must guard against the worst in a nonpolar world”, in The Daily Star, April 24, 2008”, http://www.cfr.org/bios/3350/,consultado em 03/07/2013.

HASSNER, Pierre (2003), Washington et le monde: Dilemmes d’une superpuissance, Editions Autrement.

HOMERIN, Laure (2003), Unipolarité ou multipolarité du système international après les événements du 11 septembre 2001: Mons: FUCAM. 2003. Tese de Mestrado.

HUNTINGTON, Samuel (1999), “The lonely superpower”, in Foreign Affairs, mars-avril.

LAIDI, Zaki (2003), “La question multipolaire”, in CERI/CNRS, septembre.

NYE, JR., Joseph S. (1990),Boundtolead: the changing nature of American power, New York (N.Y.), Basic books.

SANTOS, Victor Marques dos (2009), Teoria das Relações Internacionais. Cooperação e Conflito na Sociedade Internacional, Lisboa, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, Universidade Técnica de Lisboa.

Paulo Duarte é doutorando em Relações Internacionais no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa – ISCSP-UTL, Portugal, e investigador no Instituto do Oriente (duartebrardo@gmail.com).

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