A Classificação do Braço Armado do Hezbollah como Terrorista pela União Europeia: os limites das sanções e a presença integrada do partido na política libanesa., por Natalia Nahas Carneiro Maia

No último 22 de Julho a União Europeia, na pessoa de seus respectivos ministros das Relações Exteriores, inscreveu o braço militar do Hezbollah na lista de organizações terroristas do bloco. A União Europeia adotou a decisão em resposta ao atentado suicida na Bulgária em Julho de 2012 que matou cinco turistas israelenses na cidade de Burgas. A decisão foi precedida pela pressão de longa data do Reino Unido para que os demais membros da União Europeia também classificassem o grupo como terrorista, já que ele teria cometido um atentado em solo europeu. O Hezbollah, que condenou o atentado e negou as acusações com respeito à autoria do ataque, além de ser interlocutor de diversos projetos em colaboração com a União Europeia, também integra de forma ativa o governo libanês desde o fim da guerra civil no país.

O Hezbollah surgiu inicialmente como milícia em resposta à invasão israelense no Líbano em 1982 (Operação Paz para a Galiléia) e resistiu à ocupação israelense durante toda a guerra civil libanesa (1975-1990). Sua ascensão é reflexo de um processo que envolve a causa palestina e a ocupação israelense das terras árabes e a ressonância e influência que ambas vêm tendo na região nas últimas décadas. É ao mesmo tempo reflexo do apoio de grupos sociais domésticos historicamente marginalizados (KARAM, 2010a). Boa parcela da população libanesa credita a saída de Israel em 2000, após 20 anos de ocupação, à resistência do Hezbollah, e posteriormente também em 2006 na Guerra de 34 dias em Julho daquele ano. Hoje o Hezbollah é uma das forças políticas mais importantes e influentes no Líbano, presente no atual governo interino do país. O partido também detém um extensivo programa de bem-estar social ao redor de todo sul do Líbano, Vale do Bekaa e nos subúrbios ao sul de Beirute.

O Atentado em Burgas

Em 18 de Julho de 2012, cinco turistas israelenses e um motorista de ônibus foram mortos em um ataque suicida à bomba em um ônibus no aeroporto na cidade de Burgas, na Bulgária, deixando mais de 30 feridos. Burgas é a segunda cidade mais importante no litoral búlgaro do Mar Negro e nos últimos anos se transformou em um destino de férias muito popular entre os israelenses. Ainda no dia do ataque, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou que “todas as pistas levam ao Irã como responsável pelo atentado”. (NETANYAHU… 2012). Em um comunicado oficial, o primeiro-ministro destacou que seu país “reagirá com determinação”. No dia seguinte Netanyahu responsabilizou a milícia xiita libanesa Hezbollah de estar por trás do ataque terrorista ocorrido no dia anterior. A afirmação do político foi feita em entrevista coletiva na qual acusou a milícia de ser “o mais longo braço de atuação do Irã”. Para Netanyahu este é o momento de todas as nações do mundo conhecerem “a verdade”, que para ele é a de que o “Irã está por trás da onda de terrorismo, é o exportador de terrorismo número um”. (NETANYAHU… 2012).

Até o presente momento, a participação do Hezbollah no atentado na Bulgária permanece carente de provas suficientes que possam comprovar sua participação. O novo governo búlgaro recuou, em Junho desde ano, das acusações feitas ao grupo. O governo declarou que somente tinha uma “indicação”, e não prova concreta, de que o Hezbollah estaria por trás do ataque, o que “não justifica qualquer movimento da União Europeia para listá-lo como grupo terrorista”. (BULGARIA … 2013). O Ministro das Relações Exteriores búlgaro, Kristian Vigenin, cujo gabinete tomou posse em Junho deste ano, afirmou à rádio nacional BNR que “é importante que a decisão da União Europeia seja baseada não somente na explosão de Burgas porque eu acredito que a evidência que possuímos não é explícita”. (BULGARIA … 2013)

As alegações pela responsabilidade do ataque são fortemente negadas pelo Hezbollah (KOBEISSI, 2013; NASRALLAH… 2013) uma vez que o grupo se autoproclama como uma resistência que se defende das agressões israelenses, e não promove ataques terroristas. (BULGARIA … 2013). O Hezbollah afirma agir dentro do Líbano e em defesa de sua autonomia, contra as incursões de Israel, afirmando que seus membros não vão à Europa[1] (KOBEISSI, 2013).

Também a oposição búlgara se recusa a acusar o Hezbollah pela explosão do ônibus em 2012. (BULGARIAN… 2013). A oposição búlgara encabeçada pelo Partido Socialista Búlgaro e seu líder Sergey Stanishev salientou em Fevereiro deste ano que a implicação governamental do Hezbollah no atentado ao ônibus em Burgas possui fundamentos fracos e coloca em perigo a segurança nacional. Paralelamente à crítica ao governo por não fornecer uma análise minuciosa sobre as falhas na segurança nacional búlgara que levaram à perpetração do ataque, Stanishev declarou, afastando-se das declarações do líder anterior:

It is obvious that Bulgaria’s government has chosen a political approach and is only repeating the interpretation alleged by Israel on the very next day following the attack, when the investigation had not even started. […] The investigation is currently under way and there is no way one can be talking about decisive evidence regarding the direct perpetrators, much less regarding the organization that is behind this tragic event.[…] This is absolutely unjustified in view of national security and the risks that are taken with respect to people in Bulgaria. (BULGARIAN… 2013)

Horas após o atentado, Israel acusou o Hezbollah por ser responsável pelo ataque, e renovou as pressões para que a União Europeia incluísse o grupo em sua lista de organizações terroristas. O governo búlgaro, apoiado pelo Reino Unido, logo reiterou as alegações israelenses, com o então Ministro do Interior afirmando que dois suspeitos responsáveis pelo ataque “eram membros da ala militar do Hezbollah”. (SAMAHA, 2013). No entanto, inconsistências atormentam as investigações, de acordo com seus críticos. A Bulgária ainda precisa completar as investigações sobre o ataque, conforme afirmou o ministro do interior do país. (SAMAHA, 2013).

A Classificação do Braço Armado do Hezbollah como Terrorista pela UE

Até Julho desde ano, a União Europeia vinha evitando esta medida apesar da intensa pressão norte-americana, britânica e israelense. O impasse, instaurado deste maio, chegou ao fim quando novamente em Julho a Inglaterra renovou seus esforços, apesar dos empenhos diplomáticos do Líbano, França, Itália e Alemanha. Liderados pela França, alguns países argumentavam que suas relações com o Líbano – onde o Hezbollah fornece uma extensa rede de serviços sociais e seu braço político detém participação no governo – seriam prejudicadas pela medida. (LEBANON… 2013).

During deliberations over Hezbollah’s blacklisting, European countries did not all express the same level of enthusiasm. Diplomatic sources in Beirut, speaking to Al-Akhbar, said, “It was clear during the EU meeting that Italy, Norway, Sweden, Finland, the Czech Republic, and Ireland were opposed to the decision, in contrast to a strong British-Dutch dash to get the decision approved, and sudden French enthusiasm. (CHOUFI, 2013).

De acordo com a agência Efe, o objetivo da medida seria “impedir que terroristas encontrem refúgio em território comunitário sem contribuir para afetar a estabilidade do Líbano”. (UE… 2013). O acordo foi decidido por unanimidade entre os membros do bloco e passa a considerar a milícia como um grupo terrorista, embora pretenda manter “a cooperação com o governo do Líbano, o diálogo com todas suas forças políticas e a ajuda financeira ou humanitária” (UE… 2013).

Ainda que os ministros das Relações Exteriores tenham afirmado em Bruxelas que o bloco permanece desejoso da continuação de um diálogo “com todos os partidos políticos libaneses, incluindo o Hezbollah”, o próprio governo libanês presidido por Michel Suleiman pediu oficialmente aos europeus, quatro dias antes da formalização da medida, que não incluíssem o Hezbollah na lista, afirmando que a organização representa uma “parte essencial” da sociedade do Líbano (UE… 2013) e que a medida comprometeria a estabilidade do país. Em declaração no dia 18 de Julho, Suleiman afirmou que o partido não deve ser rotulado como uma organização terrorista, e solicitou que a União Europeia não tome nenhuma decisão “de maneira precipitada e sem estar baseada em evidências objetivas e irrefutáveis”. (LEBANON… 2013). O primeiro-ministro interino Najib Mikati lamentou a decisão da União Europeia, e afirmou o desejo de que o bloco realize “uma revisão cuidadosa dos fatos e dos dados adicionais que possam acusar o Hezbollah” (KOBEISSI, 2013). Adnan Mansour, o ministro libanês das Relações Exteriores, por sua vez afirmou que a União Europeia se precipitou. O líder do Hezbollah, Sayyed Nasrallah declarou que a União Europeia está abrindo o caminho para que Israel possa justificar uma nova guerra no Líbano. O secretário geral do partido reagiu à decisão do bloco afirmando:

EU countries should know they are giving legal cover for Israel to launch any war on Lebanon because they can claim it is waging war on terrorists” […] These countries make themselves undeniable allies during any Israeli aggression on Lebanon, on the resistance and on any target for the resistance in the country. […] He also posed the question to the EU of why the union hadn’t considered placing Israel’s army on its terror list.  [The EU] repeatedly admits that Israel occupies Arab land but hasn’t implemented international resolutions for ten years. The whole world has witnessed the Israeli massacres. (NASRALLAH, 2013)

De acordo com críticos da decisão, como Ibrahim Al-Amin (2013), mais uma vez os europeus demonstraram seu claro viés contra os árabes e seus direitos legítimos, no topo dos quais está o direito à resistência armada contra a ocupação,

The EU blacklisting has nothing to do with international law or justice, it is little more than an attempt to protect the oppressor from the wrath of the oppressed. […] Do the European foreign ministers who voted to blacklist Hezbollah recall how the Nazis used to designate the French Resistance? And did that prevent the Resistance from coming out on top in the end? (AL-AMIN, 2013).

Para Nasrallah, a inclusão do braço militar do Hezbollah na lista negra da União Europeia é meramente um resultado de pressões e interesses externos, e não baseada em valores e princípios. O efeito desta decisão seria principalmente psicológico:

In this country, resistance fighters fought the Israeli occupation, endured a lot of pressure and sacrificed martyrs. Then you come to those who are the sons of these people and say they are terrorists. This is abuse to fighters, to their people and to their successive governments. […] The most important thing for the Lebanese resistance is to get the support of its people and to express their will, pride and view in defending their land and their sovereignty. (NASRALLAH, 2013)

Fontes da Coligação do Hezbollah 8 de Março disseram que a União Europeia pode ter buscado atingir dois objetivos através de sua decisão, um político e outro securitário. Conforme explica Firas Choufi (2013):

The first is political, and involves “expanding the scope of action taken against Hezbollah, by creating an international diplomatic climate conducive to targeting the Resistance. […] The second achievement has to do with security, The EU’s message is: “There is no Resistance in Lebanon but a terrorist group, and subsequently, they want to legitimize any attack on Hezbollah in the future, whether by Israel or terrorist groups.” The March 8 sources also reckoned that Europe may be seeking to extend its reach in Lebanon. It aims to prevent Hezbollah from controlling important cards in any upcoming grand bargain, such as oil and gas resources in the country. (CHOUFI, 2013).

Israel, por sua vez, aprovou a decisão do bloco, mas a ministra da Justiça do país, Tzipi Livni declarou a medida insuficiente, na medida em que uma parte do grupo é considerada terrorista e a outra parte não. Para Livni “políticos e militares do Hezbollah são duas faces da mesma moeda, mas agora está claro para o mundo inteiro que o Hezbollah é uma organização terrorista”. (KOBEISSI, 2013). É importante ressaltar, contudo, que Brasil, China, Rússia não consideram o grupo como um partido terrorista, ao contrário de Israel, EUA, Austrália, Canadá[2] e agora União Europeia.

Os Limites das Sanções

Alguns diplomatas afirmam que listar o Hezbollah na lista de terroristas da União Europeia complicaria os contatos do bloco no Líbano, uma vez que o Hezbollah detém parcela significativa do governo nacional. (BULGARIA … 2013). Nas eleições parlamentares de 2005, a aliança entre o Hezbollah e o Amal obteve controle de 35 dos assentos, ou 27% de todas as cadeiras, e nas eleições de Junho de 2009 o bloco do Hezbollah conquistou 57 assentos, ou 44,5% das cadeiras (WIEGAND, 2009). De modo que atualmente o Hezbollah lidera a coalizão mais forte no parlamento libanês (March 8), representando a força política mais poderosa no Líbano (PUTZ, 2013). Fontes da colização 8 de Março afirmaram: “the decision will have no influence on the strength and capabilities of the Resistance, from armament to the movement of its leaders to fundraising. Nothing will change in reality”. (CHOUFI, 2013).

O canal de televisão Al-Manar, afiliado ao grupo, disse que a decisão da União Europeia foi tomada de acordo com a agenda israelense. De acordo com o analista Yezid Sayigh, o papel do Hezbollah na Síria endureceu a posição da União Europeia, já que alguns países que de outra forma não apoiariam a decisão foram forçados à fazê-lo.  (SAMAHA, 2013).  Amal Saad-Ghorayeb, analista política e especialista em Hezbollah, afirma que a decisão do bloco é politicamente motivada e está diretamente relacionada ao papel do Hezbollah na guerra civil síria.

“This is 100 percent related to Hezbollah’s role in Syria, the fall of Qusayr, and the defeat of the Syrian rebels,” told Al Jazeera, referring to the Syrian regime’s victory in June in the battle for the strategic town of Qusayr, in which Hezbollah confirmed it played an active role alongside the Syrian army. “The West understands the Syrian regime is not going to fall, and so this has pushed the EU to come out with this decision,” she said. “This is a PR war where they’re trying to brand Hezbollah as terrorists, and equate them to groups like al-Qaeda.” (SAMAHA, 2013).

De acordo com Thanassis Cambanis, é inegável que o Hezbollah tenha perdido determinada parcela de popularidade na região como resultado de sua postura frente à guerra na Síria. (PUTZ, 2013). Mas, ainda hoje, o Hezbollah detém profundo e inabalável suporte do maior partido político cristão no Líbano e de membros comunitários de todas as demais seitas no país. (O’REILLY, 2013). Yezid Sayigh afirma que a categorização do Hezbollah como terrorista é mais figurativa e não deverá ter um real impacto, tanto no Líbano quanto na Europa. Para o analista, este movimento tem impacto mais simbólico, já que o bloco não incluiu o braço político do grupo em sua lista de organizações terroristas. “Impacts at this stage will be quite limited partly because the contacts between Hezbollah and the EU are limited, and Hezbollah has limited presence and activity in the EU countries”. (SAYIGH, 2013, apud SAMAHA, 2013). Walid Sukkarieh, membro do parlamento pelo Hezbollah, afirmou que a medida não afetará o Hezbollah ou a resistência. De acordo com Sukkarieh, a resistência está presente nos territórios libaneses, e não na Europa. (SAMAHA, 2013)

Divisão Civil e Militar Não Evidente: Holismo

Em razão da dificuldade em se discernir onde a ala civil do partido termina e onde a ala militar se inicia, é bastante provável que a organização saia ilesa das sanções europeias. A decisão de Bruxelas foi puramente simbólica, servindo somente para apaziguar as demandas norte-americanas, que declarou o Hezbollah uma organização terrorista em 1995, depois de dois ataques contra a embaixada israelense e a uma organização judaica em Buenos Aires, cuja autoria não foi reconhecida pelo grupo. Desde então, Estados Unidos e Israel vêm pressionando seus aliados para que sigam seu exemplo. A designação da milícia do Hezbollah como terrorista deverá ter fraco impacto sobre a organização, e o alcance das sanções bastante limitado. (PUTZ, 2013).

Adicionalmente, as sanções previstas pela inclusão do Hezbollah na lista de grupos terroristas, como congelamento das contas e bens do grupo no território europeu, possuem alcance restrito, dada a dificuldade em se distinguir se os bens pertencem ao ramo político ou militar do movimento. (UE… 2013). Conforme declarado pelo porta-voz do grupo, Ibrahim Mussawi, “Hezbollah is a single large organization, we have no wings that are separate from one another.” (PUTZ, 2013). Deste modo,

It is true that Hezbollah does manage and pay its many social institutions and armed forces from the same source. “Political and social work, in addition to jihad, are operated by the same leadership,” reads an explanation from Hezbollah in response to a question about the division of labor within the party. In this way, the group has skillfully leveraged its way out of feeling the EU sanctions, because the 28-member bloc agreed to apply punitive measures solely to Hezbollah troops out of the fear that they would otherwise destabilize Lebanon. (PUTZ, 2013)

Hoje o ramo civil do grupo criou uma espécie de Estado dentro do Estado (PUTZ, 2013) e gerencia – muitas vezes em forte colaboração com o Estado libanês – escolas, hospitais e orfanatos. Através destas instituições de caridade e rede de serviços de bem estar social, o grupo assegurou apoio e lealdade de significativa parcela da população libanesa, desde sua primeira participação nas eleições parlamentares em 1992. O Hezbollah hoje possui 44% das cadeiras do parlamento e é um importante ator na política libanesa. De acordo com Firas Choufi (2013), a segmentação dos braços político, militar, religioso e institucional do Hezbollah é inviável, e seus ramos indistinguíveis:

Furthermore, who came up with the term “military wing”? How can the EU distinguish between the political and military wings of Hezbollah? Resistance sources say this is nonsense, period. Meanwhile, compared to the US decision, the European decision is meaningless. The United States, arguably the most powerful country in the world, has designated Hezbollah as a terror group for decades, and yet, nothing has changed. Even Britain, the country credited with coining the term “military wing,” already listed the Resistance party as a terrorist organization, and as we were told, “this has never had an impact on the work of the Resistance.” According to Resistance sources, “Hezbollah has no assets in Europe or interests that it would be concerned about. On the contrary, it is Europe that has interests here, and they are definitely concerned about them. (CHOUFI, 2013).

De acordo com Saad-Ghorayeb (2013) o Hezbollah é visto como um importante movimento de resistência por muitos xiitas e outras seitas no Líbano, de forma que os esforços europeus em afastar os apoiadores do grupo serão frívolos. “Hezbollah is a community, it’s a people based on a grassroots movement,” afirma, “You can’t destroy this.” (SAAD-GHORAYED, 2013, apud SAMAHA, 2013). Sayigh (2013) e Saad-Ghorayeb (2013) afirmam que em termos logísticos a diferenciação do ramo militar da organização de seus demais aspectos pode constituir razão para preocupação. A ala militar do Hezbollah é muito clandestina, de acordo com Saad-Ghorayeb, e nenhuma agência de inteligência conhece os nomes dos combatentes para que possa congelar seus bens ou negar-lhes seus vistos. Deste modo, seriam as famílias dos mártires ou seus parentes que seriam penalizados? Sayigh acredita que será bastante dificultoso manter as distinções entre os diferentes braços do movimento. (SAMAHA, 2013).

Categorização como terrorista, ainda que sendo somente do braço armado, desqualifica e reduz o movimento. Além de ignorar a atuação do Estado de Israel no sul do Líbano, frequentemente acusada de fazer uso de táticas de terrorismo de Estado. Conforme descreve Al-Saadi (2013):

The term “terrorism” is a fluid, politically-loaded term. Who uses it, when it is used, and who it is used against all come into play. Even the historical evolution of the word “terrorism” – born out of the bloodbath conducted by the French Republic after the French Revolution and now used today as a universally ambiguous categorization directed toward non-state actors – is reflective of how potent the term is. When it is used today, there are significant legal and military ramifications that give it compelling potency.  […] Understanding and being aware of the “definitions by the government bodies is important because it informs and shapes how the media in such states categorize and discuss ‘acts of terror’ whenever they occur”. (AL-SAADI, 2013)

Considerações Finais

A caracterização do Hezbollah como terrorista, além de desqualificar o papel da milícia na resistência no sul do Líbano em 2000 e 2006, levanta uma série de questões. Ainda que a União Europeia afirme que a medida não afetará as relações do bloco com a ala política do partido, como é possível distinguir o braço armado do político? Como isolar partidários não militantes? Como distinguir parlamentares atuando no sistema político libanês e o exército da resistência? Como serão as relações diplomáticas com o governo libanês, uma vez que o Hezbollah faz parte do parlamento e da política do país, prestando, entre outras coisas, diversos serviços de caráter socioeconômico e de saúde pública à comunidade libanesa?

This is far more than a semantic question. Whether something is or is not ‘terrorism’ has very substantial political implications, and very significant legal consequences as well. The word ‘terrorism’ is, at this point, one of the most potent in our political lexicon: it single-handedly ends debates, ratchets up fear levels, and justifies almost anything the government wants to do in its name. It’s hard not to suspect that the only thing distinguishing the Boston attack from Tucson, Aurora, Sandy Hook and Columbine (to say nothing of the US “shock and awe” attack on Baghdad and the mass killings in Fallujah) is that the accused Boston attackers are Muslim and the other perpetrators are not. As usual, what terrorism really means in American discourse – its operational meaning – is: violence by Muslims against Americans and their allies. (GREENWALD, 2013, apud AL-SAADI, 2013)

O Hezbollah é hoje composto essencialmente por muçulmanos xiitas, muitos dos quais se sentiam sub-representados nos sistemas econômico e político durante grande parte da existência do Líbano, apesar de responderem por cerca de 40% da população do país (WIEGAND, 2009). De acordo com Christian Karam (2010a), o maciço apoio interno no âmbito político-social gozado pelo Hezbollah advém de grupos sociais libaneses historicamente marginalizados – como operários, classes médias urbanas e camponeses de maioria xiita – pela elite burguesa liberal tanto cristã (notadamente maronita) quanto muçulmana sunita de Beirute e das principais cidades do país.

O grau de apoio popular do Hezbollah é bastante significativo e não pode ser desmerecido em favor de análises que visam marginalizar o grupo. É evidente que o grupo explora seu papel vitorioso na resistência de modo a construir e manter seu apoio político e eleitorado, relembrando os sacrifícios dos combatentes do Hezbollah contra a ocupação israelense. Contudo, é inquestionável que a resistência é extremamente popular entre os xiitas. Na verdade, a ocupação israelense é vista com bastante suspeita no sul do Líbano, inclusive em termos geoestratégicos, para ocupação de terra e utilização das fontes de água libanesas (NORTON, 1998). A resistência goza de amplo apoio principalmente dentre os xiitas que foram as vítimas principais da ocupação israelense. Também os Estados Unidos são condenados por seu apoio a Israel, que repetidamente apoia ou promove massacres no Líbano com anuência das elites locais. De acordo com Norton (1998), não há dúvida de que a presença israelense no sul do Líbano tem fomentado o radicalismo libanês.

Para as massas árabes e muçulmanas o Hezbollah se constituiu como o grande vencedor ao infligir, após 18 anos de enfrentamentos, uma derrota a Israel (que, em 2000, retirou suas tropas ocupantes da então chamada “zona de segurança” do sul do Líbano). Em seus slogans de campanha o Hezbollah capitalizou e continua a capitalizar ganhos políticos sobre seu papel na resistência em 2000 e 2006 e na reconstrução do Líbano. A crítica e oposição ao uso frequentemente desproporcional e ilegal da força militar por parte de Israel tanto nos seus ataques à Faixa de Gaza quanto ao Líbano, assim como a proposição de reformas socioeconômicas e políticas, formatam seu caráter nacionalista e anti-sectário.

É preciso contemplar o caráter holístico do Hezbollah e sua vasta rede de instituições de serviços sociais e assistencialistas, plataformas políticas pragmáticas e de resistência aliados em torno de um todo integrado em redes, no sentido de apresentar o partido como organização plural, em objeção ao entendimento exclusivamente radical e terrorista do grupo. A noção de resistência do Hezbollah, apesar de controversa, permanece pautada nos princípios básicos de emancipação e construção da autonomia do Líbano frente à ingerência de potências externas atuantes na região, de atendimento à demandas socioeconômicas populares e de empoderamento da parcela xiita e miserável às margens do Estado, social, política e economicamente sub-representada. Não se deve situar incorretamente suas atividades sociais como separadas das demais, enquanto seus próprios líderes concebem a resistência igualmente como empreendimento militar, social e político. Analisando a dinâmica interna do grupo, verificamos que é praticamente impossível desprender o aspecto militar do político, e vice-versa (SAAD-GHORAYEB, 2002, apud HARB & LEENDERS, 2005).

A noção de Sociedade de Resistência é holística, e não se pode desvencilhar a resistência contra a sub-representação política e marginalização socioeconômica xiita da resistência militar contra a ingerência externa israelense. A especificidade do Hezbollah está justamente na inter-relação e não compartimentalização de seus aspectos políticos, socioeconômicos, militares, religiosos e nacionalistas. O entrelaçamento destes aspectos configura a própria razão da legitimidade e apoio do grupo. O partido alia o caráter religioso, pragmático, militar e social de forma múltipla e holística de maneira altamente habilidosa. O crescente apoio ao Hezbollah e sucesso das instituições se dá em virtude de seu funcionamento em uma rede holística e integrada, que produz significado individual e coletivo aos seus beneficiários.

O Hezbollah inscreve seus serviços sociais e econômicos em uma rede de significados conferindo identidade e senso de pertencimento aos xiitas, de modo que a construção da legitimidade do grupo perpassa o empoderamento estrutural e identitário dos xiitas, sem desconsiderar outros grupos (HARB & LEENDERS, 2005). O fornecimento de significado identitário e de pertencimento a populações anteriormente excluídas é o pano de fundo que perpassa os demais aspectos e solidifica o apoio e legitimidade domésticos do Hezbollah. É através da interposição de ações materiais e simbólicas, utilitárias e ideológicas, que o Hezbollah construiu sua base de apoio no Líbano. (HARB & LEENDERS, 2005).

A categorização do Hezbollah como terrorista não é produtiva, tampouco possui serventia de cunho investigativo, ao contrário, marginaliza ou deslegitima o movimento. Muitas análises do Hezbollah como ‘vilão terrorista’ numa investida contra o ocidente sequer dão conta que o Hezbollah não realiza ataques suicidas desde 1985 (SAAD-GHORAYEB, 2002, apud HARB & LEENDERS, 2005).  As abordagens ortodoxas sobre o Hezbollah frequentemente falham na compreensão fidedigna do grupo e ignoram as evoluções e transformações sofridas pelo partido. Desde o fim da guerra civil o Hezbollah tem gozado de relativa boa convivência com os demais partidos políticos cuja maioria, apesar de algum ceticismo e eventuais críticas, aceitou a sua crescente participação no governo. O Hezbollah tem sido capaz de construir uma organização eficiente e responsiva que atende muitas das necessidades de seu eleitorado, ao mesmo tempo em que evita acusações de corrupção que mancham seus rivais políticos.

Referências:

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Natalia Nahas Carneiro Maia é bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo – USP, pós-graduada em Política e Relações Internacionais na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e membro integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano do Laboratório de Estudos da Ásia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP – FFLCH-LEA USP (natalianahas@gmail.com).


[1] As campanhas militares do Hezbollah foram, historicamente, sempre direcionadas a alvos exclusivamente militares relacionados à presença estrangeira no Líbano (norte-americanos, franceses, israelenses e as milícias libaneses pró-Israel). (PAPE, 2003). As acusações com respeito aos ataques terroristas na Argentina em 1992 (embaixada israelense) e 1994 (ataque à AMIA, Centro Cultural Judaico) assim como o assassinado do ex-premier libanês Rafic Hariri, foram todas veementemente condenadas e negadas pelo grupo.

[2] Estados Unidos, Israel, Canadá e Holanda consideram o Hezbollah como uma organização terrorista em sua totalidade. Enquanto a União Europeia listou somente a ala militar do grupo como terrorista. Em Junho de 2013, o GCC Gulf Cooperation Council, formado pelas monarquias do golfo, listou o grupo por completo em sua lista de organizações terroristas, por conta da presença do Hezbollah e seus interesses na Síria. (SAMAHA, 2013)

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