Convicção, Dissuasão e a Intervenção na Síria, por Paula Coury Andrade

O discurso proferido pelo Secretário de Estado americano, John Kerry, nesta segunda-feira 26 de agosto não deixa dúvidas sobre o que esperar nos próximos dias ou semanas: uma intervenção militar na Síria. A retórica incisiva adotada por Kerry faz crer que, nos bastidores, os esforços diplomáticos passam a ter como objetivo encontrar aliados para essa empreitada, no mínimo arriscada; ao passo que os esforços militares concentram-se em determinar os objetivos precisos de uma ação militar e o melhor modo de alcançá-los.

O governo americano demonstrou-se convicto de que tal ataque teria sido perpetrado pelo regime Assad. Nesse sentido, Kerry argumentou que o governo sírio mantinha os depósitos de armas químicas bem protegidos e que Bashar al-Assad estava determinado a não deixá-los cair nas mãos dos rebeldes. O Secretário de Estado americano afirmou, ainda, que a comitiva das Nações Unidas que está na Síria encarregada de investigar se houve um ataque químico no país não determinará o autor do crime. E de fato, não o fará – não porque julgue desimportante saber o autor, mas porque isso está aquém das capacidades dos investigadores. De onde vem, então, a convicção do governo americano?

A argumentação de Kerry no discurso de segunda-feira é pouco convincente, já que se baseia na “determinação de Assad de proteger os depósitos de armas químicas”. A premissa falha dessa afirmação é que, para o regime Assad, “querer é poder”. Sem dúvida os estoques de material químico são alvos estratégicos a serem protegidos pelo regime sírio, mas outros alvos estratégicos foram perdidos para os rebeldes no último ano de combates. Foi o caso de parte substancial da cidade de Aleppo, de depósitos de armas convencionais, de plantas de energia. O que garante que não tenha sido o caso de um depósito de armas químicas? Similarmente, o argumento de que os rebeldes não têm os mísseis necessários para difundir o material químico pode ser falho, uma vez que não se tem um inventário preciso dos armamentos capturados durante os combates.

De outro lado, a ideia de que os rebeldes possam ter recorrido a ataques químicos é muito desconfortável para uma comunidade internacional que clama pela proteção de civis e que acredita que a melhor alternativa é apoiar tais rebeldes. Qual seria o interesse dos rebeldes em recorrer a armas de destruição em massa? Ver a responsabilidade recair sobre o governo, é claro. Os grupos combatendo o regime Assad – amplamente apoiado por Rússia, Irã, e Hezbollah – sabem que não será possível vencer sem apoio externo semelhante. No entanto, os Estados Unidos e outros aliados deixaram claro que não haveria uma intervenção militar, a menos que Assad cruzasse “a linha vermelha” e recorresse a armas químicas.

Sem apoio das Nações Unidas ou do Ocidente, os rebeldes sírios já tomaram decisões contraintuitivas para observadores externos, por exemplo, quando aceitaram de portas abertas a chegada de jihadistas internacionais – guerreiros treinados, motivados e armados vindos de lugares tão distintos quanto a Argélia, o Iraque, o Reino Unido, a França, entre outros. É difícil precisar numericamente a importância de grupos radicais islâmicos em meio aos rebeldes sírios, mas é indiscutível que essa presença não pode ser negligenciada.

A chegada massiva de jihadistas desde meados de 2012 transformou o conflito em uma verdadeira guerra civil. Antes, o que se via, eram rebeldes fracamente armados serem massacrados pelo governo. Os jihadistas tiveram papel fundamental na transformação desses massacres em verdadeiros combates e nas subsequentes conquistas dos rebeldes, já que são treinados, experientes (muitos lutaram antes na Argélia e na Chêchenia, por exemplo), estão decididos a morrer por uma causa e armados (embora não haja transparência a respeito das fontes de financiamento e fornecimento de armamentos, sabe-se do envolvimento de cidadãos de países como a Arábia Saudita e o Qatar).

Se a ideia de que os rebeldes poderiam recorrer a ataques químicos apenas para responsabilizar o governo parece absurda para nossos padrões morais, ela faz perfeito sentido segundo a lógica daqueles envolvidos no conflito. Isso não quer dizer que toda a oposição síria não tenha escrúpulos e esteja disposta a tudo para conseguir a tão esperada intervenção internacional. Mas basta que uma pequena parcela dessa oposição esteja disposta a isso para que essa hipótese não possa ser descartada das análises. E essa pequena parcela existe, sem dúvida alguma. Afinal, o que são centenas de mortes por um ataque químico, se esse ataque servir para desencadear uma intervenção internacional?

Não apenas os rebeldes têm interesse em executar tal ataque, mas eles também já provaram serem capazes de tal ato. Em maio de 2013, Carla del Ponte, membro da Comissão das Nações Unidas encarregada de investigar os fatos na Síria, afirmou ter encontrado fortes indícios de que os rebeldes, e não o governo, teria sido responsável por um ataque de menor escala utilizando gás sarin.

Ademais, há mais de um ano os serviços diplomáticos e de inteligência ocidentais foram retirados da Síria, de modo que os fatos no país serão sempre nebulosos. Nesse contexto, como o governo americano pode descartar tão categoricamente que as armas químicas tenham sido usadas por rebeldes? Não seria mais prudente investigar melhor os fatos? Ao que parece, a convicção demonstrada no discurso de Kerry parece esconder um tiro no escuro – só saberemos a verdade, talvez um dia, se documentos forem publicados no Wikileaks.

O que motivaria os Estados Unidos a adotar tal postura? A política externa do governo Obama tem sido de desengajamento militar (ou engajamento mínimo) – como mostra a retirada das tropas do Iraque, a retirada prevista das tropas no Afeganistão, o apoio limitado à intervenção na Líbia e a resistência, até o momento, de intervir na Síria. No entanto, o ataque com gás sarin viola as leis internacionais e, deixá-lo impune seria um forte golpe à credibilidade de Washington e outros aliados que, há dois anos, proclamam que há uma “linha vermelha a não ser cruzada por Damasco”.

A intenção ao estipular uma “linha vermelha” era, certamente, que ela tivesse um efeito dissuasório sobre o governo Assad – se isso funcionou ou não, depende de quem se acredita ter sido o autor do ataque. De todo modo, dissuasão só pode funcionar quando a ameaça daquele que tenta dissuadir é crível. E a inação dos Estados Unidos diante do uso de armas de destruição em massa na Síria resultaria na perda de poder dissuasório em casos futuros, algo que Washington não pode aceitar.

Isso explica a convicção dos Estados Unidos em afirmar que o ataque foi perpetrado pelo regime Assad, mesmo quando não há evidência suficiente para tanto. Tendo determinado que deixar um ataque químico sem resposta não é uma opção, Washington precisa agora convencer não apenas seus aliados, mas também a população americana de que uma intervenção na Síria é necessária.

Convencer outros presidentes não deve ser tarefa difícil para Obama, posto que a lógica da dissuasão e da credibilidade que se coloca ao americano também se coloca aos demais. Tarefa mais árdua Obama terá ao vender essa guerra à população americana. Dizer “vamos intervir na Síria porque precisamos cumprir a ameaça que fizemos nos últimos dois anos, mas não temos certeza se o governo Assad foi responsável pelo ataque” não ajudaria a convencer a população. Ao contrário, Washington apelou para a moralidade e a humanidade de sua audiência. Exemplo disso foi a colocação de Kerry de que os vídeos dos ataques o chocaram “como pai” – mas é claro que não foram “pais chocados” que tomaram a decisão de intervir na Síria!

Paula Coury Andrade é bacharela em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e mestranda em Segurança Internacional no Instituto de Estudos Políticos de Paris (paula.couryandrade@gmail.com).

3 Comentários em Convicção, Dissuasão e a Intervenção na Síria, por Paula Coury Andrade

  1. Legal os apontamentos.O momento crítico da economia americana, talvez, seja uma das razões que o povo americano não aceite tal intervenção armada dos EUA. E, claro, os fracassos no Vietnã e no Iraque tb.