O Século XX: as Relações Internacionais e a ascensão das questões sociais., por Rafaela Oliveira Ludolf

Composta por processos de alternância em cooperação e conflito, as Relações Internacionais, se desenvolveram como uma totalidade de complexidades que se revelam em um cenário extraterritorial (o sistema internacional). São relações assimétricas de poder que se revelam no plano da inserção e posicionamento estratégico dos atores – relações assimétricas, pois os atores são essencialmente distintos. (PEDRÃO, 2012).

Essa configuração assimétrica é resultado de um processo histórico que se desenvolve desde o fim da Segunda Guerra e é acentuado na Guerra Fria, nesse sentido se fará aqui uma retrospectiva dos conflitos, mas especialmente dos movimentos ideológicos que esses conflitos legaram as Relações Internacionais neste último século.

As duas grandes guerras na abertura do século XX causaram, na sociedade internacional, um impacto de proporções gigantescas; mas o fim da Segunda Guerra Mundial, em particular, gerou um arranjo político fundamental para o estabelecimento do primeiro grande debate daquele século. A “ordem” multipolar do entre-guerras e a eclosão da Segunda Guerra serviu para a solidificação da transição de hegemonia e reconhecimento de novas potências.

Neste período era possível observar a formação de um novo ciclo sistêmico e a transferência de poder e de centralidade da Europa para os Estados Unidos (EUA). As movimentações internacionais seguiam sua lógica de cooperação e conflito, especialmente, impulsionadas pelo processo de acumulação global do sistema capitalista de produção.

Com o fim da Guerra Fria, o mundo passa a presenciar a ascensão dos EUA – como herdeiro e maior representante da economia capitalista – e da União Soviética (URSS) – representado a “oposição”, o comunismo. A política externa dessas potências passa a se orientar no sentido de contenção, ou seja, impedir o crescimento da outra em sua área de influência. E as Relações Internacionais vive um debate entre os complexos teóricos do Realismo e Liberalismo.

Já nos debates que giram em torno do poder fala-se de um sistema bipolar, representado pelo poder compartilhado entre duas polaridades, neste caso, EUA e URSS. Como parte da política estratégica norte-americana é possível perceber uma expansão do pensamento liberal no sentido de impulsionar processos democráticos, aliados a uma maior integração do sistema internacional, pelas vias econômicas; para tal observa-se o auxílio norte-americano na reconstrução da Europa, por meio do Plano Marshall, a estruturação e solidificação da Organização das Nações Unidas, do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional como um mecanismo de angariar aliados, estratégia política e econômico-financeira respectivamente.

O desenvolvimento do socialismo também tem sua importância, mas como ao fim da Guerra Fria o capitalismo/liberalismo saiu vencedor vamos nos ater nos processos de desenvolvimento ideológico deste lado do globo. Ou seja, “a queda do muro de Berlim assinalou simbolicamente o fim do mundo conhecido (bipolar) e a afirmação dos EUA como potência mundial e o triunfo do mundo liberal” (GOMES, 2009, p. 29).

Fala-se aqui de um movimento do pensamento em torno de ideias que darão base a política internacional do final do século XX e inicio do XXI, sendo ligeiramente abalada pelo atentado de 11 de setembro de 2001 (“questionamentos” sobre a intocabilidade dos EUA). Segundo Sacchetti “o fim da bipolarização política mundial e, mais importante ainda, o fim dos governos comunistas europeus e a implosão da URSS permitiram a adesão voluntária de vários países, um pouco por todo o mundo, aos valores democráticos ocidentais”. (2009, p.157).

No pensamento de Relações Internacionais vê-se o liberalismo desenvolvendo conceitos de interdependência complexa (Keohane e Nye) e de sistema mundo (Wallerstain), ou seja, as grandes guerras “amoleceram” os homens abrindo espaço para uma entrada mais arrojada do capitalismo. Tem-se inicio a expansão dasteorias de globalização somadas a Terceira Revolução Industrial que significará, ao fim da Guerra Fria, uma hegemonia isolada dos EUA.

Para os adeptos da perspectiva da polaridade em Relações Internacionais, ao fim da Guerra Fria o quadro da bipolaridade vai dar lugar a uma unipolaridadenorte-ameriana no plano das políticas internacionais. Dada à reconhecida força dos EUA, é possível percebê-lo nesse período como o grande hegemon(somatório de capacidades materiais e imateriais – influência e força).

A consolidação da agenda foi marcada pelo adensamento das redes de interdependência entre Estados, empresas e movimentos sociais (Keohane, Nye, 2000) – fenômeno nomeado por muitos como globalização – foi responsável pela difusão da democracia liberal, pelo domínio das forças de mercado e, finalmente, pela integração das economias nacionais em um mercado de troca de bens e serviços de feições globais (ESTEVES; 2003; P.71).

Porém, no plano econômico houve uma abertura de espaços estratégicos para o processo decisório, com a inserção de economias fortes como Alemanha e Japão que mais tarde seriam reconhecidas como G7 (Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e o Canadá). Pela linha das polaridades, essa configuração que agora permitia que outras potências se apresentassem nos processos decisórios da economia global, abriu espaço para uma ideia de multipolaridade ou, ainda, uni-multipolaridade; onde os polos de poder eram bem definidos na configuração do cenário, EUA no centro político e militar e as maiores economias do mundo no centro econômico.

A nova ordem mundial é marcada não mais pelo poder das armas, mas pelo poder do dinheiro, as relações econômicas estão mais intensas e com uma nova geopolítica. […] A partilha do mercado mundial envolve as estratégias das grandes corporações econômicas e as políticas dos Estados (GOMES, 2009. p. 28).

Em resumo, o período da Guerra Fria e os anos que seguem são caracterizados por forte influência do liberalismo, universalização de princípios de democracia e cooperação respaldados em organismos internacionais (instituições) como auxiliares dos processos decisórios globais. É o momento onde duas percepções de mundo se confrontam, no sentindo de superação.

De um lado o atrasado representado pelo imperialismo europeu, desenvolvido com base na lógica eurocentrista de negação da alteridade, submissão dos povos e a superioridade do branco civilizador; Do outro o frescor da visão norte-americana, um olhar sobre o mundo desenvolvido pelos padrões do capitalismo americano, caracterizando uma mudança singular nas estruturas globais, apoiada em um discurso de supervalorização do indivíduo e no papel central exercido por ele no funcionamento dos sistemas (organizações e associações econômicas) fazendo com a missão universalizadora de “mundialização do mundo” pertença agora ao “indivíduo”, mas sua forma organizacional representada pelo capital privado. Configura-se a ordem pós Guerra Fria.

Designa-se como Nova Ordem Mundial à nova realidade emergente das relações políticas e econômicas internacionais contemporâneas. Nela, as humanidades da Terra percebem-se vivendo em um sistema mundial de produção de mercadorias, articulado e em movimento, do qual as economias desenvolvidas, subdesenvolvidas, socialistas e capitalistas fazem parte. Não há mais economias nacionais autônomas funcionando de maneira autônoma. Criou-se uma grande economia que está por cima da compreensão de nacionalidades. Além disso, essa Nova Ordem Mundial vem significando também uma explosão da miséria, da desordem, da exclusão e da fragmentação em determinados pontos do mundo (TASSARA; DAMERGIAN, 1996. p. 295).

Desde os tempos de Marx já se discutia as contradições internas do modelo de acumulação promovido pelo capitalismo e é obvio que agora, organizado internacionalmente, ele produzirá contradições a nível global e a percepção desse movimento é o que fará ascender, no âmbito dos debates das relações internacionais, as análises das questões sociais e da globalidade desses problemas (problemas comuns a todos os Estados).

Tais problemas dizem respeito ao uso dos bens, recursos e valores raros do sistema global; sobre os mesmos abrem-se fortes controvérsias entre os governos porque se trata de problemas aos quais podem ser dadas diversas soluções alternativas. São eles, entre outros, problemas de reequilíbrio dos desníveis de desenvolvimento econômico entre os Estados e as áreas do mundo, problemas da defesa dos direitos humanos e da democracia, problemas da autodeterminação dos povos e da proteção dos grupos étnicos minoritários, problemas dos fluxos migratórios por motivos econômicos, problemas da recolocação de grandes massas de exilados por motivos políticos, problemas da regulamentação e regimentação do aproveitamento dos recursos naturais comuns (espaço, atmosfera, oceanos etc.) e dos recursos materiais e humanos raros, entre os quais se inclui o conhecimento nos campos científico e tecnológico (TASSARA; DAMERGIAN, 1996. p. 296).

Ou seja, é no final do século XX, mas especificamente com a consolidação dos Estados Unidos e a universalização do liberalismo, que se observa o surgimento de novas opções de análise da realidade internacional e política mundial. Enquanto Fukuyama anunciava o fim da história; os enfoques humanistas surgem abordando o debate “questões sociais versus modo de produção/exploração capitalista” e temas como meio ambiente, gênero, identidade, pobreza, fome, fluxos migratórios etc. passam a ganhar/conquistar algum espaço.

Referências

ESTEVES, Paulo Luiz. Instituições Internacionais. Comércio, Segurança e Integração. EDIPUC-MG. 2003.

GOMES, Henrique Manuel Candeias. A Nova Ordem Mundial:Do fim do mundo bipolar à emergência de novos actores internacionais. Dissertação de Mestrado apresentada ao Mestrado em Estudos Euro-Asiáticos. Lisboa – 2009.124p.

PEDRÃO, Fernando Cardoso. A Política das Relações Internacionais. Curitiba: Appris, 2012.

SACCHETTI, Vice-Almirante António Emílio. A Conjuntura Internacional e os Novos Conflitos. A organização e defesa do ocidente face aos novos desafios, in Estratégia, Vol. V, Instituto Português da Conjuntura Estratégica, Lisboa 1996.

TASSARA, Eda Terezinha De Oliveira; DAMERGIAN, Sueli. Para um novo humanismo: contribuições da Psicologia Social. Estud. av. vol.10 no. 28 São PauloSept./Dec. 1996. Disponível em: [http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40141996000300013&script=sci_arttext].Acesso em: 14/08/2013.

Rafaela Oliveira Ludolf é Professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de Sergipe – UFS (rafaludolf@gmail.com).

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