O Papel do Cristianismo na Construção das Relações Internacionais, por Elói Martins Senhoras

A recente renovação da liderança da Igreja Apostólica Romana, com a eleição do arcebispo Jorge Mario Bergoglio como bispo de Roma, o 266º Papa e atual chefe de Estado Nação da Cidade do Vaticano, bem como sua vinda à cidade do Rio de Janeiro para a Jornada Mundial de Jovens (JMJ) tem sido temas de grande interesse internacional em função da influência de longa duração que o cristianismo teve e continua tendo no mundo.

Inicialmente, a historiografia demonstra que a relação de influências do Cristianismo surge em relação ao Império Romano, com a instrumentalização combinada de busca para a construção ou manutenção de ciclos hegemônicos espiritual e material. Relação esta tensa, em que o Estado Romano, influencia de maneira positiva ou negativa à Igreja e vice-versa.

Em um primeiro momento, o Império Romano, difundido no Ocidente e no Oriente visualiza perigo com a rápida difusão do cristianismo sob seus domínios territoriais, o que motivou uma perseguição aos cristãos contra os novos valores de paz, igualdade e monoteísmo, justamente em um Estado que se consolidou por meio da guerra, da escravidão e do politeísmo.

O cristianismo surgiu na Palestina no século I, quando Jesus de Nazaré, com cerca de 30 anos de idade começou a pregar a sua doutrina, a qual defendida uma mensagem de paz, amor e tolerância entre os homens, baseando-se em princípios como crença em um único Deus, igualdade entre os homens perante Deus, prática de virtudes e salvação pela fé, com vida eterna após Ressurreição.

Após a morte de Jesus, uma série de discípulos levaram a sua mensagem para diferentes territórios segundo uma projeção no estrangeiro identificada como paradiplomacia eclesiástica2, aproveitando-se da navegação do Mar Mediterrâneo e dos sistemas de estradas romanas. Com o objetivo de angariar novos fiéis, os discípulos reafirmaram o caráter existencialista e universal da nova religião na Palestina, Ásia Menor, Grécia e finalmente Roma.

A expansão da seita cristã foi muito rápida, beneficiando-se não somente dos valores e princípios, mas também da facilidade de locomoção nos territórios romanos. Os primeiros a aderir à nova religião foram Judeus convertidos. Progressivamente, o cristianismo conquistou os gentios até chegar à Grécia e Roma, já que as religiões pagãs destas localidades pouco satisfaziam as as aspirações e necessidades das populações.

Em um segundo momento, mesmo sendo o cristianismo perseguido, ele teve uma ampla difusão nos territórios romanos, inclusive em Roma, o que motivou o imperador Constantino a incorporá-lo como religião oficial do Estado no século IV findando agregar vantagens políticas contra a decadência romana por meio de um favorecimento de uma Igreja Imperial.

Conforme Donat (2010), a conversão de Constantino ao cristianismo, enquanto Imperador Romano, trata-se de um dos eventos decisivos da história da civilização ocidental e também mundial, haja vista a decisão marcou a história da cultura ocidental dezessete séculos depois, já que a conversão do monarca tornou o cristinismo em uma Igreja Imperial, o que potencializou, momentaneamente, o fortalecimento recíproco do Imperador e da religião.

A revolução religiosa iniciada pelo Imperador Constantino tratou-se de uma iniciativa amplamente arriscada, já que o autocrata desafiou o pensamento da maioria, findando se aproveitar de uma base metafísica com uma dinâmica doutrina espiritual para manter a unidade e a estabilidade do Império, o qual já estava em um ciclo descendente de hegemonia, pela dimensão territorial de suas fronteiras3.

Não há dúvidas, que sem a decisão autocrática do Imperador Constantino e a constituição de um política de estímulo ao desenvolvimento de uma Igreja Imperial, o cristianismo nunca teria se construído como pilastra religiosa da civilização ocidental, já que teria sido muito pequena a possibilidade daquela seita religiosa se tornar em um movimento massivo (Veyne, 2007 apud DONAT, 2010).

Por mais que a estratégia do Imperador Constantino tenha sobrevivido aos desafios trazidos por uma maioria pagã, ela foi incapaz de garantir a estabilidade política do Império Romano, haja vista que a ideologia do cristianismo foi se adaptando a uma realidade de Igreja Imperial, projetando-se mais na consolidação de uma força material relativamente autônoma a propriamente um braço ideológico do Estado.

O desenvolvimento do cristianismo como Igreja Imperial foi favorecido não apenas pela sua institucionalização como religião oficial do Império, mas principalmente devido a dispensa de obrigações ficais e aos benefícios trazidos por doações de bens e propriedades feitas pelos Imperadores, que se converteram em mecenas responsáveis pela construção de igrejas e basílicas em todo território romano.

“Progressivamente, o Cristianismo foi-se organizando por todo o Império: construíram-se templos (basílicas cristãs) para servir as comunidades; estabeleceu-se uma administração própria , com base em dioceses dirigidas por bispos ; em Roma , capital do Império, passou a residir o papa , chefe da Cristandade. Assim, dentro do Império, estabeleceu-se uma nova força, a Igreja. O Cristianismo veio a constituir nos séculos seguintes uma das principais bases da civilização ocidental” (MARTINS, 2011) .

Embora Constantino tenha tomado uma decisão autocrata para tornar o cristianismo em uma Igreja Imperial, observa-se que o Imperador conseguiu mensurar bem os riscos, motivo pelo qual houve manteve vários pagãos em altos cargos e teve uma atitude tolerante e sem perseguição com a maioria, os pagãos. O resultado foi o convívio paralelo entre cristãos e pagãos, o que viria a durar até a conversão destes últimos ao cristianismo.

Ao fim da hegemonia romana, a Igreja Apostólica Romana passou a desempenhar um papel inverso ao desenhado pelo Imperador Constantino, uma vez que nunca se colocou como um braço ideológico do Estado, funcional para a manutenção da unidade política e territorial, mas antes acabou se revelando como um elemento acelerador da fragmentação do Império, já que muitos dos líderes bárbaros à época das grandes invasões se convertiam ao cristianismo com o fim de se apresentarem como soberanos civilizados (Dumezel, 2006 apud DONAT, 2010).

A consolidação de valores cristãos na civilização ocidental de hoje, mais além da cristianização dos bárbaros ou da vitória cristã sobre os mulçumanos nas cruzadas, séculos posteriores, tem como base de origem o processo de favorecimento político do cristianismo, identificado pela imperialização da Igreja que se estrutura, tanto, pela difusão do softpower de valores por meio do corpo missionário e de templos, quanto, do hardpower do uso da força por soldados da fé, tais, como os Cavaleiros Templários e Hospitalares.

De um lado, no ciclo de manutenção hegemônica do Império Romano, a imperialização da Igreja representou o primeiro passo em direção a histórica união do estado e a Igreja. De outro lado, no ciclo de decadência da hegemonia Romana, diante de sua crescente fragmentação pelas invasões bárbaras, a Igreja se cindiu entre Igreja Ortodoxa (Oriente) e Igreja Apostólica Romana (Ocidente).

Com o fim do Império Romano do Ocidente, a Igreja Apostólica Romana desponta como principal ator material e temporal no período de ruralização econômica e social, bem como de descentralização política na Europa, o qual ficou conhecido na literatura como período Feudal ou da Idade Média.

Como os primeiros séculos da Idade Média são de formação da civilização européia ocidental, existe uma identidade mínima entre os diferentes povos, que tem como base comum a influência do cristianismo no mundo romano em desestruturação e no chamado mundo bárbaro, constituído por territórios adjacentes, porém, autônomos, à dominação do Império Romano.

Esses dois mundos vão sendo hibridizados so longo dos séculos IV ao VII através de uma influência da Igreja Apostólica Romano que marcou profundamente toda sociedade, pois o período Feudal é de forte fragmentação territorial e descentralização política, bem como de regressão demográfica e cultural e crescente ruralização, onde a Igreja se torna no principal ator de regulação social, fruto de sua relevância adquirida no Império Romano, por meio dos tribunais eclesiásticos.

Com o fim das cruzadas e a expulsão dos mouros da península Ibérica, por meio de uma relativa centralização política dos reinos, surgem os primeiros Estados Nacionais, Portugal e Espanha, os quais à procura de rotas comerciais alternativas para se chegar aos territórios do Oriente, às Índias Orientais, acabam por descobrir o Novo Mundo, o qual será arbitrado em sua exploração por uma série de bulas papais que viriam a influenciar o ciclo hegemônico ibérico, bem como a colonização das Américas.

Neste novo período da história, de centralização política e de surgimento do Absolutismo de Estado, há um movimento de remonetarização da economia, formação de sistemas de tributação e conformação de exércitos nacionais sob a égide de um Rei Soberano, que passsa a ser legitimado pela Igreja, baseando-se nas doutrinas cristãs de “dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” e de obediência à autoridade terrena, proclamada na Epístola dos Romanos, quando se diz que “todo poder vem de Deus” (DALARI, 1998).

O desenvolvimento capitalista da economia de mercado; a partir de diferentes fases, esteve intimamente relacionado aos ciclos hegemônicos subsequentes, mercantilista (hegemonia ibérica), industrial (Pax Britannica) e concorrencial (Pax Americana); esteve  claramente vinculado à conformação sistêmica de Estados Nacionais, a partir da assinatura da Paz de Westphalia em 1648, o que põe uma derrota à Igreja Catótica e sua influência sobre a dinâmica internacional, em especial na civilização ocidental.

A Paz de Westphalia oficializa o surgimento da diplomacia moderna, pois deu início ao sistema “inter-nacional” ou de Estados-Nações, baseada em princípios de direito internacional, como a soberania estatal, bem como impondo o primado do interesse nacional e da razão de Estado, os quais não coadunam mais com a arbitragem da Igreja Católica e sua influência nas decisões políticas4.

Destarte, observa-se uma inflexão na influência do cristianismo na civilização ocidental, oriunda de uma dupla fundamentação, em primeiro lugar, pelo surgimento de reformas protestantes na Europa, que acabam por ampliar a influência na Economia, como espirito do Capitalismo (Weber, 1997), em contraposição à diminuição da influência do cristianismo (Protestante e Apostólico Romano) na Política, frente à normatização de poder soberano aos Estados-Nações, com a Paz de Westphalia (MAGNOLI, 2008).

Enquanto o protestantismo engendrou o motor de sua difusão axiológica no mundo por meio da internacionalização de múltiplas redes de missionários e de distintas Igrejas, cuja natureza se assenta na paradiplomática eclesiástica, a Igreja Católica, por meio do Tratado de Latrão de 1929, legitima a Cidade-Estado do Vaticano como centro de difusão de uma diplomacia eclesiástica no mundo devido ao papel centralizador do Papa como líder espiritual do cristianismo e chefe de Estado da Santa Sé5.

Por um lado, observa-se que o cristianismo perdeu seu poder temporal dos tempos de Igreja Imprerial ou do Feudalismo, o que ocasionou à volta de sua influencia de maneira indireta na sociedade das eras Moderna e Contemporânea. Por meio de seus valores que viriram a ser difundidos pelas revoluções políticas liberais (Francesa e Americana) ou ainda com o surgimento de reformas no liberalismo, com o Welfare State, o cristianismo seria vetor de influências nos ideais de fraternidade, igualitarismo político e convergência social.

Por outro lado, registra-se uma perda crescente de influência do cristianismo no dia a dia da civilização ocidental, pois a sociedade internacional tornou-se complexa ao se cristalizar por meio de um paradigma racionalista e por meio uma multiplicidade de princípios, como democracia, laicismo, direitos humanos, feminismo, liberade sexual, os quais podem ou não se coadunar com os valores ou com a moral cristã.

É certo que a cristianização foi latente em diferentes periodizações, com uma evolução temporal e material crescente, tanto, na sociedade romana e barbara, bem como na sociedade feudal, ou ainda com a difusão do catolicismo em colônias européias nas Américas, Ásia e África ou do protestantismo na conformação de mentalidades racionalistas de sociedades eminentemente capitalistas.

No entanto, as transformações da política internacional e a integração de uma economia-mundo nas eras moderna e contemporânea, introduziram um forte movimento de desacralização da civilização ocidental, baseando-se crescentemente no individualismo, no racionalismo e na definição de um estado democrático de direito, o que repercutiu na regressão de poder de difusão do cristianismo.

Conclui-se que ao longo de dois milênios, o cristianismo transformou-se – de uma seita a uma religião de massa – assim como transformou os territórios de sua influêmcia, a partir de sua institucionalização em religião oficial do Império Romano. De ator marginal, a ator central na definição política, os ciclos hegemônicos demonstraram a relevância que teve o cristianismo na civilização ocidental e como tem sido cíclica sua influência.

Referências bibliográficas

  • DALARI, D. A. (1998). Elementos da Teoria Geral do Estado. São Paulo: Editora Saraiva.
  • DONAT, L. R. (2010). “El cristianismo en una obra reciente”. Temas medievales, vol.18, Enero/Diciembre.
  • MAGNOLI, D. (org) (2008). História da Paz. São Paulo: Editora Contexto.
  • MARTINS, S. O. (2011). “Cristianismo – uma religião inovadora”. AtuthorSTREAM. Disponível em: <www.authorstream.com/betrue>. Acesso em 29/02/2012.
  • SENHORAS, E. M. (2013). “Múltiplas Camadas das Relações Internacionais entre a Diplomacia e a Paradiplomacia”. Revista Intellector, vol. IX, n. 18.
  • VATICANO – Estado da Cidade do Vaticano (2013). Website do Vaticano. Disponível em: <www.vatican.va>. Acesso em 29/07/2013.
  • WEBER, M. (1997). A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Acadêmica.

Elói Martins Senhoras é economista e cientista político, especialista, mestre, doutor e pós-doutorando em Ciências Jurídicas. É professor universitário em cursos de graduação e pós-graduação da Universidade Federal de Roraima – UFRR (eloisenhoras@gmail.com@gmail.com).

2 A paradiplomacia eclesiástica está relacionada à expansão internacional da religião com base em dois formatos reticulares, respectivamente, de internacionalização primária, com a mobilidade de missionários para outros países, e, de internacionalização secundária, com o estabelecimento organizacional de Igrejas e templos, bem como a difusão de novas redes eclesiásticas dos próprios pontos do exterior rumo a outros países (SENHORAS, 2013).

3 De acordo com Dalari (1998), o último período da história hegemônica romana é o do Baixo Império, conhecido como dominato, quando ocorreu a cristianização do Império, e também a decadência política e cultural. É neste momento que a a Igreja se institucionaliza Católica, (que significa universal), Apostólica (dos apóstolos e missionários), Romana (a igreja oficial de Roma). Por muitos séculos os papas abençoaram os novos monarcas e imperadores, e até hoje o poder da Igreja mantém-se autocrático, absolutista e divino.

4 Segundo Magnoli (2008), com base na Paz de Westphalia, as guerras não mais teriam como causa principal a religião, mas antes, giravam em torno de questões de Estado, o que permitiria inflexões na balança internacional de poder em função do alinhamento entre potências católicas e protestantes, antes inexistentes. Embora o imperativo da paz tenha surgido de uma longa série de conflitos generalizados (Guerra dos Trinta Anos), ela traz uma noção embrionária de que uma paz duradoura derivava de um equilíbrio de poder, noção essa que se aprofundou com o Congresso de Viena (1815) e com o Tratado de Versalhes (1919).

5De natureza eclesiástica ou teocrático-monárquica, a cidade do Vaticano é considerada um Estado com soberania nacional, cuja origem imediata fora o Tratado de Latrão de 1929, embora na longa duração tenha sido o resultado subseqüente a uma história de Estados Pontifícios na região central da atual Itália entre 756 e 1870. Com reconhecimento internacional, o Vaticano trata-se do menor Estado-Nação no mundo, com uma área de apenas 0,44 km² que é governada pelo bispo de Roma, o Papa, e, administrada por funcionários públicos que são clérigos católicos de diferentes origens raciais, étnicas e nacionais (VATICANO, 2013).

1 Comentário em O Papel do Cristianismo na Construção das Relações Internacionais, por Elói Martins Senhoras