A moderação iraniana: a eleição de Rouhani e as novas perspectivas para uma política de (falsas) esperanças, por Ricardo Prata Filho

A figura de Mahmoud Ahmadinejad sempre foi polêmica. O presidente ultraconservador do Irã, em seus oito anos de mandato, conseguiu comprar muitas brigas com a comunidade internacional, principalmente no tocante ao programa nuclear iraniano, o que resultou em uma série de sanções que comprometem a economia do país de maneira bastante grave. A eleição de Hassan Rouhani em junho desse ano marca uma mudança e uma insatisfação do eleitorado com relação à situação do Irã. Considerado um moderado, o novo presidente, que assumirá em agosto, trouxe consigo novas esperanças para a resolução pacífica e diplomática de controvérsias. Ainda assim, o seu papel é limitado pela figura religiosa do ‘líder supremo’ Ali Khamenei, o qual tem em suas mãos muitas das questões que fazem o Irã ser malvisto por alguns de seus vizinhos, pela Europa e pelos Estados Unidos principalmente. Nesse sentido, o país pouco mudaria e as esperanças iniciais seriam postas à prova, perdendo espaço para o situacionismo islâmico ultraconservador que ainda fala mais alto e continua a ser a atmosfera predominante em alguns temas e ações.

As eleições presidenciais anunciadas em 2012 pelo Ministério do Interior iraniano aconteceram na mesma época em que o Canadá – até hoje muito desacreditado na política islamizada em questão – rompeu relações diplomáticas com o Irã após uma série de discursos em apoio ao regime de Bashar al-Assad na Síria, país que vive uma complicada guerra civil. Em junho de 2013, seis candidatos concorreram ao cargo de presidente, sendo quatro deles considerados ultraconservadores, Rouhani moderado e, um último, tecnocrata. A vitória de Rouhani foi recebida pela televisão estatal como uma vitória da moderação sobre o extremismo e Khamenei saudou o novo presidente dizendo que todos deveriam apoiá-lo em seu mandato. O desgaste das relações entre Khamenei e Ahmadinejad já era percebido há algum tempo e o confronto entre o presidente e o aiatolá desagradava às lideranças clericais que sustentam o Irã. As negociações sobre o programa nuclear, por exemplo, causaram um estremecimento grave, uma vez que elas só poderiam ser feitas sob consulta ao ‘líder supremo’.

As tensões que existem entre a base presidencial e os líderes religiosos complicam o país internamente. O episódio de 2011 em que Ahmadinejad teria demitido o ministro da inteligência e Khamenei o teria reconduzido mostra não só um conflito interno, como também a tentativa frustrada do presidente em assegurar alguém de confiança dentro do ministério para que ele pudesse lançar um aliado forte pra sucedê-lo. A figura de Rouhani, nesse sentido, aparece não apenas como um moderado, mas como um trunfo para a política, não só doméstica como também internacional, iraniana. A disputa e a consequente vitória de Rouhani mostram não só uma insatisfação popular para com a atual situação do país, mas também que sua pessoa não desagrada à base religiosa, podendo vir a ser um aliado para instrumentalizar uma possível manobra política para ganhar tempo ou mesmo barganhar a eliminação de sanções e ainda maquiar e amenizar a crise econômica pela qual o país se afunda.

O modo com que a Casa Branca saudou o novo presidente deu alguns sinais de que sua vitória poderia ajustar os problemas externos do país, minimizando implicações, sem ainda minar de todo a política conduzida pelo aiatolá. As esperanças que cercam a nova eleição são evidentes e, em certa medida, fazem sentido, já que um alinhamento entre as forças internas do Irã, juntamente com uma postura mais amena do novo presidente podem levar a um diálogo menos truncado. O apoio à Síria e os discursos enfáticos de Ahmadinejad desafiando o Ocidente são dinâmicas que podem ser controladas com o novo governo, deixando de provocar desentendimentos que tragam consequências mais profundas. De toda forma, os poderes presidenciais são limitados pelo aiatolá e as mudanças no Irã não serão, de maneira alguma, drásticas. Até porque, para uma melhora interna, é preciso que o afinamento de interesses entre as lideranças religiosas e a presidência seja maior, evitando conturbações como as de 2011 já anteriormente citadas, nas quais o impeachment de Ahmadinejad foi uma alternativa considerada nos cálculos dos líderes clericais.

Desde 2011, a moeda iraniana tem valor 80% menor que o dólar e as inúmeras sanções ao país reverberam em uma inflação descontrolada e pouco emprego. A situação dos jovens é crítica e o isolamento do Irã é um fato. A plataforma de Rouhani para reverter essa disposição que cerca o contexto nacional foi um dos fatores que deu impulso para a sua vitória. Ainda assim, enquanto as eleições aconteciam, Ali Khamenei aproveitou para criticar a postura do Ocidente, que desmerece o processo eleitoral do país e o acusava de fraude. A posição incisiva do aiatolá contra o secretário de Estado americano, John Kerry, foi mostrada enquanto o líder votava, dizendo que se o Irã tivesse que esperar algo de quem desacredita no país, estariam andando para trás. O que intriga é que a candidatura de Rahim Mashaei, aliado de Ahmadinejad, foi desqualificada, reforçando a ideia de que Khamenei, de alguma forma, manipula as eleições, na busca daquele que melhor se submeteria às suas ordens.

Talvez seja por isso que o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, afirmou que a pressão sobre o Irã não deve ser moderada e que a República Islâmica deve pagar pelos seus excessos, pois Ali Khamenei é quem dispõe do controle das questões de maior complexidade como o programa nuclear. O caso entre Israel e Irã é mais preocupante, já que até mesmo o novo presidente iraniano alfinetou o governo inimigo. Rouhani afirmou que as atitudes de Israel são “ridículas” e que o país seria “miserável” após receber ameaças por parte de Netanyahu de que será necessário intervir militarmente no Irã para interromper o programa nuclear que ameaça o território israelita. O acirramento de tensões entre os dois é um sinal negativo, já que se esperava uma postura diferente do novo líder, mais comedida e conciliatória.

Será que o discurso receptivo dos presidentes Obama e Putin ao novo governo iraniano durante a última cúpula do G-8 dando um tom de expectativa caiu por terra? A ideia de que os problemas mais urgentes sejam resolvidos por mecanismos de negociação internacional diplomáticos e saudáveis foi repercutida por alguns países que compartilham desavenças com o Irã. Contudo, os avanços iranianos nesse contexto indicam que serão pouco significantes, visto que a política de Ali Khamenei é a que prevalece no país. Os poderes limitados de Rouhani, como já dito, talvez possam contornar uma visão hostil sobre o Irã, adiando um confronto maior e tirando-o da clausura que compromete sua economia. Ainda assim, pouco importarão para uma mudança de postura política no caso de uma grande ampliação de direitos civis e/ou do polêmico programa nuclear. Ao fim, segue-se Estados Unidos e Israel tendo presença barrada na posse presidencial pelo Ministério das Relações Exteriores iraniano, afirmando ainda mais uma atmosfera de ilusão e falsas esperanças.

Ricardo Prata Filho é membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET-REL, e do Laboratório de Análise em Relações Internacionais – LARI (ricoprata@gmail.com).

Seja o primeiro a comentar