Rumo ao Topkapi? Análise sobre os protestos populares na Turquia, por Emiliano Unzer Macedo

Do outro lado do Corno de Ouro em Istambul o antigo palácio do sultão otomano, o Topkapi, testemunha as recentes manifestações populares contra o governo do primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdoğan. O palácio otomano simboliza o isolamento e autocracia do centro de um vasto império multiétnico que se estendia desde as terras argelinas, a oeste, até o Lorestão na fronteira com a Pérsia, a leste. Em seu auge, no século XVI, o sultão Solimão, o Magnífico, reinava sobre 15 milhões de súditos (KINROSS, 1979).

Desde 1923, o país pôs termo ao seu passado imperial otomano de mais de 600 anos, aboliu o sultanato, e fez a transição para uma república parlamentarista. O reconhecimento internacional da nova situação política do país foi ratificado pelo tratado de Lausanne e sua capital mudou-se para um local mais estratégico, Ancara, na Anatólia central. Seu primeiro presidente republicano, Mustafá Kemal, laureado pelos turcos até os dias atuais como o Atartürk, o pai dos turcos, é fruto do reconhecimento de um estadista que soube guiar a nascente Turquia nos rumos republicanos e seculares.

No contexto da Guerra Fria, a região foi alvo de disputas entre americanos e soviéticos que buscavam uma aliança com o referido país em razão de sua localização estratégica, na saída do Mar Negro para o Mediterrâneo. Quando os turcos aderiram à OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) em 1952, o governo de Truman ganhou uma parceria crucial a conter o expansionismo soviético no Mediterrâneo oriental e a apaziguar possíveis insurreições comunistas na região. Golpes militares e repressões aos oposicionistas foram recorrentes na Turquia nas décadas subsequentes. Inserida como aliado vital dos EUA, os militares turcos tinham o aval dos seus aliados para reprimir e conter qualquer força insurgente, desde comunistas até separatistas de minorias étnicas como os curdos.

O cenário político turco mudou após o fim da Guerra Fria. No início do século XXI, num ambiente multipartidário e eleitoral livre, o partido AK (Justiça e Desenvolvimento, sigla em turco) conseguiu maioria parlamentar e firmou-se como força política no país, num período de crescimento econômico e queda de inflação. Desde 1961 a Turquia assinou 19 empréstimos financeiros com o FMI, Fundo Monetário Internacional, cujo montante chegou a quase 24 bilhões de dólares. Em 2012, a dívida com o Fundo decresceu para menos de um bilhão de dólares (DAILY NEWS, 2010). Assim, em decorrência do controle parlamentar e da estabilidade econômica do país, o líder do partido AK, Tayyip Erdoğan, foi eleito seguidamente em 2002, 2007 e 2011 como chefe de governo.

Como sintoma do crescimento econômico sustentado – com média anual de 6,8% de seu PIB entre 2002 e 2007, 9,2% em 2010 e 8,5% em 2011 (OECD, 2012) – a Turquia tem testemunhado um frenético ritmo de setores de sua economia como a da construção civil. Em Istambul, há projetos de uma nova terceira ponte a ligar a parte asiática com a européia da cidade, além de um túnel subterrâneo sob o estreito de Bosfóro, o Marmaray, visando desafogar os congestionamentos. Nesse plano de novos projetos urbanos, consta-se a construção de novos complexos comerciais na cidade como o que derrubará o parque Taksim Gezi, no distrito de Beyoğlu, uma das poucas áreas verdes na região central de Istambul.

Incapazes de serem ouvidos pelo governo frente a tal empreitada, uma onda de protestos foi desencadeada, inicialmente por ecologistas e estudantes. Somou-se a isso um vasto e multifacetado espectro de demandas e insatisfações – desde jornalistas, professores, oposicionistas, secularistas, homossexuais etc. – devido às recentes medidas governamentais antiliberais como a limitação da liberdade de expressão e controle de imprensa (BILEFSKY & ARSU, 2012), reformas educacionais no ensino primário rumo a uma maior islamização, limitação na venda de bebidas alcoólicas e cerceamento a direitos de homossexuais (SURTEES, 2011; THE ECONOMIST, 2013), causa de frustração de muitos com o progresso político e social do governo.

A popularidade do partido AK e de Tayyip Erdoğan pauta-se no crescimento sustentado da economia turca. No entanto, demandas e insatisfações encontraram um foco de manifestação no episódio do parque Taksim Gezi que poderão desestabilizar seu futuro político. A sociedade turca pluralizou-se durante as décadas de democracia após o fim da Guerra Fria e medidas antiliberais do governo vão contra essa tendência. O pluralismo não deve ser lidado com autoritarismo nem ignorado em nome do crescimento econômico. Ganharia o governo ao adotar uma linha política mais liberal que permita a expressão plural da sociedade turca, mantendo-se o país como referência democrática no mundo islâmico. Medidas repressivas continuadas do governo contra demandas de sua população podem sugerir a mudança da sede do governo turco em Ancara de volta para o Topkapi.

Referências Bibliográficas

BILEFSKY, Dan & ARSU, Sebnem (2012). Charges Against Journalists Dim the Democratic Glow in Turkey. Disponível em: [http://www.nytimes.com/2012/01/05/world/europe/turkeys-glow-dims-as-government-limits-free-speech.html?pagewanted=all&_r=0]. Acesso em: 10/06/2013.

DAILY NEWS (2010). Turkey’s Flirting with IMF comes to an end. Disponível em: [http://www.hurriyetdailynews.com/default.aspx?pageid=438&n=flirting-with-imf-comes-to-an-end-2010-03-10]. Acesso em: 12/06/2013.

KINROSS, Lord (1979). The Ottoman Centuries: The Rise and Fall of the Turkish Empire. Nova Iorque: William Morrow.

OECD (2012). Economic Survey of Turkey 2012. Disponível em: [http://www.oecd.org/turkey/economicsurveyofturkey2012.htm]. Acesso em: 10/06/2013.

SURTEES, Joshua (2011). Turkey is not a free country. Disponível em: [http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2011/may/01/turkey-free-democratic-reform-youth]. Acesso em: 11/06/2013.

THE ECONOMIST (2013). Alcohol in Turkey – Not so good for you. DIsponível em: [http://www.economist.com/news/europe/21578657-mildly-islamist-government-brings-tough-alcohol-restrictions-not-so-good-you]. Acesso em: 12/06/2013.

Emiliano Unzer Macedo é professor adjunto de Formação do Mundo Contemporâneo no departamento de História da Universidade Federal do Espírito Santo – UFES (prof_emil@hotmail.com).

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