A influência de valores pessoais na política internacional: promessas e receios relativos à nova representante permanente dos Estados Unidos junto às Nações Unidas, por Vitor Eiró Storino

A nomeação de Samantha Power ao cargo de Representante permanente dos Estados Unidos junto à ONU foi recebida de maneira controversa entre os grupos políticos e a sociedade civil americana. Advogada incansável dos Direitos Humanos, formada por Yale e Harvard, Samantha Power ganhou notoriedade em seu trabalho como colunista e correspondente internacional para países que enfrentavam situações de graves violações de Direitos Humanos de revistas americanas renomadas, como a TIME Magazine. Por sua relação próxima com a situação do genocídio na Bósnia, Power publicou o livro intitulado “A Problem from Hell: America and the Age of Genocide” pelo qual foi condecorada com o prêmio Pulitizer.

Power mostrou-se muito crítica à condução da política externa norte-americana no que tange a seus esforços para evitar violações em massa de direitos humanos. Em 2003, Power proferiu críticas contundentes à administração Bush devido à suposta negligencia do Presidente em relação à situação de Darfur, atribuindo-a a uma falta de vontade política de sua cúpula de governo em dar uma resposta mais assertiva para os problemas enfrentados na região oeste do Sudão. Contraditoriamente, mesmo quando deu crédito à resposta tardia do governo Bush à situação, em 2004, Power desacreditou as motivações humanitárias do presidente, alegando que, na verdade, o então presidente estaria tomando medidas para frear os crimes contra humanidade a fim de agradar seu eleitorado cristão e permitir que empresas americanas pudessem ter acesso ao petróleo sudanês.

As críticas ao governo republicano em matéria de politica externa fizeram de Power uma figura bem vista aos olhos do Partido Democrata. Não obstante, Power iniciou seu trabalho junto a Barack Obama enquanto este era ainda senador, em 2005, como assessora de seu gabinete para politica externa. Tendo licença do gabinete de Obama, por um ano, para servir como Anna Lindh Professor of Practice of Global Leadership and Public Policy na Harvard University‘s Kennedy School of Government, Power voltou a trabalhar com Obama em sua campanha presidencial. No entanto, em mais um episódio controverso de sua carreira, Samantha Power viu-se obrigada a retirar-se da campanha após ter sido exposta dando declarações vis – que supostamente não estariam sendo gravadas – sobre a então candidata à vice-presidência Hillary Clinton.

Todavia, o apreço de Obama pela advogada pareceu não ser afetado pelo estranhamento ocorrido durante a campanha. Ainda em 2008, Power participou da equipe de transição do Departamento de Estado para o governo Obama. No ano seguinte, assumia o cargo de Assessora especial e Diretora do Núcleo para Assuntos Multilaterais e Direitos Humanos no Conselho de Segurança Nacional dos EUA.

Contudo, sua posição de destaque no núcleo da administração de Obama continuou lhe rendendo críticas contundentes. Anteriormente vista como uma incisiva defensora do pró-ativismo internacional americano, diversas figuras proeminentes dentro da sociedade civil tacharam sua atuação dentro da Casa Branca de extremamente inexpressiva e silenciosa. Ativistas internacionais, inclusive alguns amigos próximos de Power criticaram sua displicência em relação a temáticas como as intenções da Revolução Verde de 2009 no Irã e, mais recentemente, a ociosidade do governo americano em dar respostas mais assertivas aos desrespeitos generalizados aos Direitos Humanos na Síria.

Por outro lado, há de se fazer justiça ao posicionamento de Power no que tange à proteção dos Direitos Humanos dentro da administração Obama. É atribuída, principalmente, ao esforço da advogada a decisão norte-americana de se engajar na decisão de se estabelecer uma zona de exclusão aérea sobre o território da Líbia, após declarações do então presidente Muanmar Qadafi de que não pouparia recursos para exterminar opositores de seu regime. Nessa ocasião, Power se mostrou resiliente e fiel às suas convicções pessoais de que os Estados Unidos devem utilizar todos os seus recursos disponíveis no intuito de evitar violações em massa dos Direitos Humanos e engajar-se em iniciativas nessa direção proporcionalmente ao nível de gravidade da situação, seguindo princípios como o da Responsabilidade de Proteger (R2P).

O histórico politico de Power permite entender a polarização da opinião pública e política que rodeia sua nomeação ao cargo de representante permanente dos Estados Unidos junto à ONU. Por lideranças da sociedade civil como Kenneth Roth, diretor executivo da Humans Rights Watch, Power é uma escolha adequada do governo Obama, pois, por ter um grande conhecimento de situações de desrespeito indiscriminado pelos Direitos Humanos, ela poderá contribuir para uma posição mais assertiva do Conselho de Segurança ao lidar com essa temática em diferentes partes do globo. Ademais, Power promete agradar a ala mais intervencionista do Partido Democrata. Seus posicionamentos anteriores levam a crer que ela se empenhará em direcionar o engajamento americano em temáticas de Direitos Humanos rumo a uma prática mais ativa e assertiva.

Por sua vez, sua nomeação gerou também críticas entre a opinião pública americana. A reconhecida inexperiência da advogada com o ambiente de debate diplomático multilateral é um fator que pesa muito em contrário a sua aceitação enquanto representante permanente. Não obstante, preocupações foram levantadas quanto aos rumos da politica externa americana para a questão Árabe-Israelense, seguidamente a sua nomeação. Power já proferiu críticas incisivas à maneira como Israel desempenha sua politica de segurança na região e sobre o apoio diferenciado que os Estados Unidos conferem ao Estado de Israel nesse contexto. Teme-se que a posição particular de Power acerca do conflito entre Israel e a Palestina possa determinar uma inflexão no tratamento americano da questão e, por consequência, desagradar uma grande parcela dos eleitores americanos.

Por fim, torna-se claro que Samantha Power coleciona controvérsias por onde quer que passe em sua trajetória profissional. Aguerrida defensora dos Direitos Humanos e do principio internacional da Responsabilidade de Proteger; e exaltada por instituições que se dedicam a essa prática, Samantha Power, além de uma escolha adequada para o cargo, representa promessa de maior engajamento norte-americano na defesa desses direitos fundamentais, inclusive pela via militar, se julgada necessária. Por outro lado, ela é vista com receio pelos conservadores americanos que, além de adotarem, em geral, uma postura mais contida do envolvimento americano em iniciativas extraterritoriais, temem por uma mudança incisiva dos direcionamentos da política norte-americana para com um de seus mais importantes aliados. Finalmente, resta, contudo, saber se Samantha Power será capaz de influenciar pessoalmente à politica externa americana de maneira mais decisiva e romper com elementos estruturais que a delineiam atualmente, ou manter-se-á em uma posição contida e respeitando o jogo político norte-americano, como enquanto Assessora do Presidente. A aposta desse autor é que o curso da cautela e da quietude será o adotado pela advogada em suas funções como nova representante permanente.

Vitor Eiró Storino é bacharelando em relações internacionais pela Universidade de Brasília – UnB (vitoreirostorino@gmail.com).

1 Comentário em A influência de valores pessoais na política internacional: promessas e receios relativos à nova representante permanente dos Estados Unidos junto às Nações Unidas, por Vitor Eiró Storino

  1. Eis a Teoria Feminista das Relações Internacionais em ação e o futuro dirá, mas creio que como já verificado desde a Convenção de Viena, Cairo e a IV Conferência Mundial das Mulheres, Power irá mostrar postura assertiva, cogente e sobretudo diplomática, equalizando temas de Direitos Humanos com a maestria , apesar de posturas pessoais, de evitar que ocorra um retrocesso e já está rompendo estruturas com a postura que adota. Parabéns pela abordagem do tema.