Só o trauma do 11-S pode explicar o terror em Boston, por Luís Fernando Vitagliano

O 11 de Setembro (11-S) é um daqueles momentos únicos na história que tem o poder de potencializar o impacto dos fatos e despertar configurações latentes. Passados mais de dez anos do acontecido a memória coletiva continua forte em relação ao evento e ainda destacadas na nossa consciência as imagens do desastre. Este mecanismo de lembrança é ainda pior porque a cada nova catástrofe pública a memória é acionada imediatamente, tornando aqueles primeiros momentos da nova tragédia uma nova expectativa por outra tragédia naquela magnitude (será que teremos outro 11-S?) e parte-se em busca dos mesmos responsáveis. Assim, já temos a tendência de previamente considerarmos qualquer ataque a multidões como motivações terroristas dos fundamentalistas religiosos em um novo episódio de jihad islâmico.

Nas relações internacionais o ataque às torres gêmeas do WTC teve como consequência pelo menos três grandes impactos que tomaram proporções imediatas depois dos atentados: mudança na política externa dos EUA, redução do poder das organizações políticas internacionais na negociação dos conflitos internacionais e fortalecimento do terrorismo internacional como ação de grupos fundamentalistas radicais que praticam o jihad.

Em relação aos EUA foi a primeira vez na história que se adotou a “doutrina preventiva” como posição de política externa. Mesmo que a assim chamada Doutrina Webster (de segurança preventiva) tenha sido acionada em alguns episódios internacionais desde o Caso Caroline de 1823, nunca havia se tornado a segurança preventiva como uma política externa de Estado. A diferença entre a Doutrina Webster original e a Doutrina de Segurança Preventiva elaborada pelos Falcões do Departamento de Estado após o 11 de setembro é que antes dos episódios do WTC buscava-se o ataque preventivo como um movimento de neutralização do inimigo para tornar rápida a resolução de uma crise que já estava à beira de um conflito militar. Israel, por exemplo, usou a doutrina de segurança preventiva em dois momentos da sua história: no ataque aéreo ao Egito em 1967 que marcou o início a Guerra dos Seis Dias e depois em 1981 em um ataque ao reator nuclear da cidade iraquiana de Osirak. Foram ações rápidas, cirúrgicas, que tiveram efeito imediato e resultado preciso. Nenhuma dessas características descritas é similar ao desgastado ataque estado-unidense na Guerra do Iraque ou ao interminável conflito no Afeganistão. A doutrina preventiva dos EUA só veio a causar instabilidade internacional e, ao invés de trazer mais segurança ao ocidente, aumentou os focos de tensão internacional. Além disso, promoveu aberrações como tratar Estados Árabes como inimigos ou alvos para caçar grupos internos radicais – fato que acarretou em um ciclo de auto alimentação: ao caçar os radicais antiamericanos ampliava-se o antiamericanismo, que ampliava a base e a legitimidade da própria radicalização daquelas sociedades alvos dos ataques preventivos dos EUA fazendo-o ampliar sua força, que amplia a legitimidade interna dos grupos antiamericanistas.

O segundo ponto a se destacar é o descompasso entre as ações dos Estados Unidos descritas anteriormente e as resoluções da ONU junto de seus órgãos afiliados. O caso mais expressivo dessa crise entre a superpotência militar e a comunidade internacional representada pelas Nações Unidas foi em relação às supostas armas de destruição em massa no Iraque. Após a Guerra do Golfo (1991) o Conselho de Segurança da ONU criou a UNSCOM (Comissão Especial das Nações Unidas) para investigar e evitar a presença de Armas de Destruição em Massa (ADM) no Iraque. Em parceria com a AIEA (Agencia Internacional de Energia Atômica) os relatórios da UNSCOM não apontavam para a presença de ADM no território iraquiano, posição oposta a do Departamento de Estado dos EUA. Assim, como é de conhecimento público, os relatórios da UNSCOM e da AIEA foram insuficientes para dissuadir uma guerra preventiva dos EUA contra o Iraque em 2003. O evento gerou desgaste geral e ficaram evidentes as limitações das organizações internacionais representadas no sistema ONU. O poder dos Estados Unidos se sobrepôs a posição oficial das Nações Unidas, que assistiram às ações unilaterais sem condições políticas de reagir a essas interpelações. Na posição de superpotência militar com poder bélico bastante superior aos seus inimigos o governo Bush conquistou plena legitimidade interna com a exposição midiática da tragédia do WTC. Depois do fim da Guerra Fria o equilíbrio de poder entre as superpotências pendeu para a vitória dos Estados Unidos, mas entre reconhecer os foros internacionais de conciliação e a atitude unilateral, após o 11-S decidiu-se por agir sem necessariamente recorrer a legitimidade internacional, enfraquecendo o papel de segurança coletiva depositado às Nações Unidas.

Finalmente, o 11-S mostrou a nova face das ameaças internacionais. A Al-Qaeda (Frente Internacional pelo Jihad contra os Judeus e Cruzados) não é um Estado Nacional, sequer é um partido político, é uma organização de radicalização, supostamente religiosa, mas suas motivações e objetivos são obscuros. A organização é composta por células interconectadas através informações dispersas e propositadamente desencontradas, mas que as torna muitas vezes ruidosas. As formas de recrutamento são as mesmas ideológicas da Jihad (guerra santa), mas com atuação internacional. Agir contra civis distantes pode não ser a melhor forma de defender a desocupação do Iraque ou a autonomia da Palestina. No que o atentado dos aviões nas torres gêmeas contribuiu para isso? A jihad sempre teve atuação localizada e dizia respeito aos diversos conflitos que a região do Oriente Médio abrigava. Os atentados dos diversos grupos tinham como propósito a demonstração de reação dos povos oprimidos por ocupações ou lutas contra politicas de ditadores que não permitiam a prática fundamentalista do islamismo. A jihad internacional foi proposta por Bin Laden depois da experiência Afegã de luta e resistência contra a ocupação soviética. A formação do Mujahideen (guerreiro santo) do campo Al-Qaeda liderado por Abu Ebeida El-Banashiri que treinava insurgentes afegãos contra a ocupação do país por tropas soviéticas foi a inspiração de Osama Bin Laden para formar seu exercito guerreiro jihadista. O fato que é se chega ao ataque às torres gêmeas usando-se de uma organização que não se expressa pelas instituições políticas clássicas (Estados, partidos políticos, fundações ou escolas), mas por ações realizadas por insurgentes dispostos a sacrificar a própria vida pela causa. Como um país pode lutar contra terroristas em potencial que estão no Afeganistão, na Arábia Saudita, no Egito, no Líbano, na Líbia, no Mali, na Palestina, no Paquistão, na Síria, na Somália ou qualquer outro país com presença muçulmana, sendo esta a segunda maior religião do mundo com cerca de um bilhão e meio de praticantes?

Atribuir aos garotos tchetchenos de Boston a mesma responsabilidade terrorista dos ataques de 11-S me parece desproporcional. Não há indícios que os ligue diretamente a qualquer grupo terrorista. Não há provas de financiamento dos grupos do Oriente Médio ou ligações que os aproxime de um apoiador ou financiador internacional, mesmo assim fez-se uma análise em rede das suas ligações islâmicas via Tchetchênia até o Uzbequistão e assim vai. Por este tipo de análise em redes estou a quatro ou cinco pessoas de seduzir a Angelina Jolie – o que aparece como tecnicamente próximo, mas é uma impossibilidade lógica da mesma forma. Talvez não devamos buscar em Morguenthau, Aron, Bull, Waltz, Nye ou Castells, mas em Freud uma explicação para essas novas ameaças à segurança internacional. Não se tratam de atores que se moldam pela racionalidade dos agentes internacionais essas novas ameaças, mas de pessoas com predisposição a psicose com acesso fácil às tecnologias de destruição em massa.

Se se quer combater a presença ocidental no Oriente Médio ou a presença de Israel em território palestino, me parece mais óbvio que se adquira poder para tratar de tamanho problema – poder na região médio-oriental que permita atuar na magnitude do problema. Sendo um político ou líder local com legitimidade de atuação este passa a ter a obrigação de avaliar o risco das ações. O que fez Bin Laden e os membros da Al-Qaeda que executaram o atentado de 11-S não foi um ato heroico como muitos apoiadores do jihad podem pensar, foi um ato irresponsável, ineficiente e desastroso em função da sua própria causa típicos de indivíduos agindo por conta própria e sem responsabilidade pública. Ações unilaterais de grupos ou indivíduos não podem o mesmo sentido de ações de Estado e ao tratar as novas ameaças com o poder de dissuasão das armas, não se inibe, mas se estimula novos atentados. A lógica dos pequenos grupos não é a mesma das grandes instituições e o que vai dissuadi-los a não atacar não segue o princípio das teses de segurança e defesa nacionais.

A relação dos fundamentalistas religiosos com os EUA já foi descrita pelos psicanalistas como conflitante e cheia de antagonismos. A terra das oportunidades, com seus múltiplos estímulos ao consumo gera encanto e repulsa a uma pessoa que se recusa religiosamente a desfrutar dos prazeres mundanos. Nessa contradição os psicanalistas defendem que o individuo passa a querer destruir o objeto do prazer para que este não exerça mais o poder de atração que o faz cair em tentação. Daí a conclusão que muitos atentados contra os EUA forma executados por combatentes que moraram por anos no país e estiveram durante muito tempo sujeitos ao prazer capitalista da terra das oportunidades.

Atitudes como a dos jovens de Boston podem ser vistas sob o problema de imigração ou das conexões internacionais do terrorismo como muitos especialistas em segurança vão querer fazer, mas estão mais ligados às questões da própria psicologia do que as próprias diferenças geradas pela incapacidade de conciliação entre Ocidente e Islamismo. Atentados de jovens em escolas, atentados públicos de maníacos e ações de indivíduos que recorrem às mais diversas motivações sociais não podem ser vistos como um problema de relações internacionais. As teorias voltadas à logica da ação dos Estados, organizações internacionais e outros atores não estatais não explica a ação dos grupos terroristas ou dos indivíduos que agem em favor de uma causa que mal conhecem. Portanto, usar a força de um Estado contra esses civis é tão eficiente quanto matar formigas com bazucas: o resultado não é garantido e o efeito é absurdamente desproporcional e exagerado em relação ao problema. Para tratar dessas novas ameaças serão precisos novos paradigmas de segurança coletiva, as velhas formas de ação através da guerra entre Estados não cabe ao presente ou ao futuro das relações internacionais.

Luis Fernando Vitagliano é cientista político, doutorando na Unicamp e professor do curso de Relações Internacionais das Faculdades Metropolitanas Unidas – FMU e do Centro Universitário Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial – SENAC-Santo Amaro (luisvita@gmail.com).

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